
09 de fevereiro de 2012 · 20:19
Só quem vive mais de perto o processo de desapropriação das terras dos lavradores do quinto distrito de São João da Barra pode aquilatar o semblante dos valentes camponeses e suas famílias, expulsos (não encontro outra palavra) dos seus lares e do pedaço de chão onde plantam seus grãos de sonhos e buscam o direito à felicidade em seu justo ganho.
Quase que em silêncio, sem voz, sem mídia, sem que seus gritos de socorro repercutam na dimensão real de sua dor, homens e mulheres de aparência humilde, quase simplória, são violentamente submetidos a um êxodo forçado e despossuídos de seu espaço sagrado, de seus laços afetivos e suas referências.
A sociedade capitalista tem o poder da acumulação de capital, que gera trabalho e oportunidades. Tira comunidades sem maiores horizontes da estagnação e da ausência de perspectivas, é verdade. O complexo do Açu cumprirá, assim, seu papel histórico de retirar do atraso uma região que ostentava até então uma das piores rendas per capitas e um dos mais baixos índices de desenvolvimento do país.
Os decretos de desapropriação são reconhecidos como um ato de força, sim, mas nome da razão maior do interesse público, já que teoricamente beneficiará o conjunto da sociedade, com raras exceções. Entretanto, as exceções tem nome, sobrenome, endereço, cara e alma.
Como é plausível raciocinar que todo processo de transformação civilizatória, como uma revolução industrial ou tecnológica, deixa as marcas da capacidade de acumulação de riquezas, um dos trunfos da existência do capitalismo, como mencionei acima, mas também o paradoxo da exclusão social.
Quanto mais esta sociedade estiver melhor aparelhada para discutir este processo de exclusão ou inserção, tanto menores serão os efeitos deletérios dessas mudanças. Tenho conversado sobre estes aspectos como uma das cabeças mais lúcidas e privilegiadas da terra de Narcisa Amália, o economista professor Alcimar Chagas.
Por outro lado, compete ao Estado ou aos agentes públicos (prefeita, governador, deputados ou vereadores) a ação, jamais a omissão, no papel da mediação desses conflitos de interesses, bem como os diferentes setores da sociedade, as demais forças vivas e grupos de pressão, no sentido de formarem um braço de sustentação como anteparo para salvaguardar o direito à dignidade desses pobres cidadãos.
Estes, que não podem ser as primeiras vítimas da exclusão social que todo gigantesco projeto traz em seu bojo, se não for bem conduzido deste o seu nascedouro. Sabe-se que uma região de estrutura de produção agrícola rudimentar que não mais que de repente é assaltada por uma ruptura, uma metamorfose, torna-se terreno fértil para o agravamento das presentes e futuras distorções.
Os lavradores do quinto distrito não são seres inúteis, dispensáveis; pelo contrário, são pessoas de fundamental importância inclusive para o cultivo da terra e a produção de alimentos para o contingente enorme de pessoas que irão desembarcar na região por conta do porto e outras atividades em sua órbita.
Logo são esses produtores que devem ser estimulados para tornar a cadeia produtiva rural mais dinâmica e capaz de suprir nossa escassez local de produtos alimentícios que "importamos" de outras regiões, infestados de agrotóxicos e outras substâncias fora do controle de nossa sociedade.
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