
25 de maio de 2011 · 01:22
A polêmica e inacreditável cartilha criada pelo MEC do “nós pega peixe” suscita discussões arrebatadoras entre a totalidade dos acadêmicos brasileiros e alguns dos puristas que ainda povoam ainda as redações dos jornais, que haverão de dedicar páginas e ensaios de execração ao livro.
Com a internet, o acesso às redes sociais permitiu constatar como estamos tratando mal o vernáculo. E lá vem os burocratas do MEC a patrocinar a maior aberração entre os absurdos...
A briga entre os puristas e os que defendiam o uso coloquial na linguagem é bem retratada no livro “Memórias do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, leitura obrigatória de qualquer jornalista. Lima inventou o Lobo, revisor que na redação tratava a língua como uma entidade divina que deveria ser cultuada.
O dono do jornal, o Dr. Loberant, nervoso com o constante emparelhamento dos concorrentes nas bancas atribui a culpa à linguagem empregada em seu jornal, muito rebuscada. O diálogo seria mais ou menos assim: “Não quero mais gramática, nem literatura aqui!... Nada! Nada! De lado essas porcarias todas... Coisa para o povo, é que eu quero!”
O velho Lobo retrucou: “Mas doutor, a língua é uma coisa sagrada. O culto da língua é um pouco o culto da pátria. Então o senhor quer que o seu jornal contribua para a corrupção deste lindo idioma de Barros e Vieira...”. O patrão quis encerrar a conversa: Qual Barros, qual Vieira! Isto é brasileiro - coisa muito diversa!”
Mas o purista da redação não se rendeu: “Brasileiro, doutor!. Isto que se fala aqui não é língua, não é nada: é um vazadouro de imundície. Se Frei Luís de Sousa ressuscitasse, não reconheceria a sua bela língua nessa amálgama, nessa mistura diabólica de galicismos, africanismos, indianismos, anglicismos, cacofonias, cacotenias, hiatos, colisões... Um inferno! Ah, doutor! Não se esqueça disto: os romanos desapareceram, mas a sua língua ainda é estudada”.
A resposta do Lobo é definitiva, segundo a qual o jornal tem que primar pelo compromisso com o idioma pátrio como instrumento de defesa do patrimônio cultural.
A Semana de Arte Moderna de 22 preconizava o verso livre, a oralidade, a descontração de espírito da linguagem, o que viria representar a grande revolução nas artes e, particularmente, na literatura brasileira.
Como é certo que Manuel Bandeira chamava a “língua errada do povo” de “língua correta do povo” porque “ele é que fala gostoso o português”... Neste caso, falar correto significa o falar que a comunidade espera, e erro em linguagem equivale à língua do povo, do cotidiano, de onde o poeta retira o material para seus versos, para sua vida, para entender a realidade, até mesmo do imaginário popular de onde extrai as histórias fantásticas que são o caldo verdadeiro de toda a cultura.
É verdade, pois, que a célula vital da força criadora que pulsa na veia do poeta é a sua liberdade, donde se aplica a tal chamada “licença poética”.
Todavia, não vai ali nem em 1922, nem nos versos de Bandeira ou na implicância do Dr. Loberant nenhuma propaganda em torno da troca de uma linguagem acessível, por uma avacalhação, que não contribui em nada, pelo contrário. Presta um desserviço à língua como patrimônio maior. Quer destruir um povo, uma civilização, comece por matar sua língua. Afinal, quem poderia estar por trás dessa nefasta obra?
pintoporto@yahoo.com.br

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