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Coluna do Psicanalista

Luiz Duncan

A falta que me faz

19/04/2019 às 22h02

A falta que me faz
A angústia muitas vezes é confundida com ansiedade. Ansiedade é um estado de expectativa frente a algo que ocorrerá, seja bom ou ruim. Angústia, por sua vez, envolve sempre um sofrimento psíquico e também físico, corporal, é a sensação psicológica que se caracteriza pelo sufocamento, pelo peito apertado. A angústia surge perante a falsa resposta que quer dar conta do vazio existencial, uma obturação que não tem nada a ver com o conteúdo da demanda, é a presença da mentira que os pais dão aos filhos perante o enigma da vida. É o eu sei que não sei, mas, parece que existe alguém que sabe.

Para Lacan a angústia não é uma emoção, mas um afeto especial que “tem estreita relação de estrutura com o que é um sujeito”. É um afeto que não engana. A angústia é o modo radical sob o qual é mantida a relação com o desejo. O desejo está intimamente ligado a falta, a angústia é a falta da falta. É o mal-estar que vemos hoje em dia: pais que não conseguem dizer “não” aos seus filhos, que tentam completar um vazio existencial, vazio este que muito marcou suas vidas, foi estruturante na sua existência, mas não querem que os filhos construam a partir daí, pelo contrário querem tamponar, cometem esse erro de querer dar conta da falta, sempre com boas intenções.O aparecimento da angústia se dá quando a própria falta pode faltar. A falta, pois, é a marca da verdade na vida, e é quando esta se encontra ameaçada que a angústia dá o alarme.

 Diz Lacan: “O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que voltaremos ao colo”. Ou seja, não é angustiante a alternância da mãe entre presença e ausência, pois a criança aprende a simbolizar exatamentenessa situação. Assim, é importantíssimo que a criança não tenha tudo o que demanda. Precisa-se preservar um vazio para a manutenção do desejo, e a angústia surge, justamente, para sinalizar o perigo desse excesso.

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O desejo se move por sua relação com a falta, são trocas metafóricas e metonímicas que estabelecem uma relação dialética com a demanda, o que eu peço e o que eu quero com aquilo que eu peço, tudo isso é operado por essa função da falta.Isso mesmo: a falta nos guia em direção ao que está em nossa volta, a sabedoria, não o saber, que nos ajuda a transcender aquilo que nos falta.

Por isso Lacan diz que o desejo é o remédio contra a angústia. A dimensão temporal desse engajamento é a angústia e essa dimensão temporal é o que está em jogo na vida.

 

                                                                Luiz Roberto Duncan

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                                                                       Psicanalista


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