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Coluna Ranulfo Vidigal

Ranulfo Vidigal

Dilemas nacionais

26/06/2018 às 21h36

Dilemas nacionais

O homem teve origem natural no reino animal. Contudo ele distingue-se do animal, antes de tudo e fundamentalmente, pelo trabalho. O trabalho criou o homem, a sociedade humana e produziu o pensamento conceitual e a linguagem. A descoberta do papel do trabalho na criação do homem só foi possível, do ponto de vista do pensamento, associada à classe da sociedade que está diretamente ligada ao trabalho e à produção de toda a riqueza.

Entretanto, conforme nos ensina o filósofo Bruno Latour - autor da obra seminal “Nunca fomos tão modernos”, o navio está sem rumo, pois de um lado concentra-se o conhecimento das coisas e de outro o interesse, o poder e a política dos homens.

Trazendo esse debate para a nossa seara, a mobilidade social brasileira é um vexame Na Dinamarca bastam duas gerações (de 25 anos cada) para descendentes de famílias pobres alcançarem a renda média do país, contra 9 gerações no País da jabuticaba e do futebol. Nos EUA e Portugal é de cinco gerações, mas na África do Sul e na Colômbia do belo futebol é 11 e 15, respectivamente. O Brasil mantém de pé políticas públicas e instituições que reforçam a enorme e abissal desigualdade. Os dez por cento mais ricos da terra tupiniquim dominam, simplesmente, 55 por cento da renda – muito concentrada. O Brasil possui 171 mil ricaços. Nesse contexto, existe uma soma de medos no Brasil: das contra-reformas, do desemprego e da violência.

O país da jabuticaba é um exportador de talentos. Manda para fora 250 jogadores de futebol, (1063 nos últimos cinco anos). Exporta jovens mestres e doutores cansados com a impossibilidade de manter suas pesquisas. Exporta soja, minério de ferro, café, açúcar, carnes e agora petróleo bruto. Uma verdadeira abertura dos portos às nações amigas. Por aqui resta uma elite predatória, cartorial e financista arraigada ao fundo público – pródigo em subsídios, isenções e juros da dívida pública.

Uma luta discursiva opondo visões opostas de democracia vem sendo travada no Brasil atual. Contudo nossa cultura viva nossa musicalidade pode constituir-se na principal vanguarda no avanço de valores como fraternidade e igualdade. O Brasil jamais será o país dos amargurados. No matriarcado de Pindorama, a alegria é a prova dos nove, conforme Oswald de Andrade. Mais do que nunca, caminharemos cantando e superando nossos limites históricos.

 

Ranulfo Vidigal – economista.

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