Quinta-feira, 13 de agosto de 2020
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Rafaela Machado

As origens do petróleo em Campos: Da Fazenda Boa Vista à Bacia de Campos

08/08/2020 às 23h27 E ATUALIZADO: 09/08/2020 às 07h56

Arquivo Pessoal
O Aqui tem História dessa semana vem contando sobre as origens da descoberta do petróleo na nossa região

Você já se perguntou sobre a origem do petróleo em Campos? Pois saiba que o petróleo foi descoberto pela primeira vez na nossa região não em alto mar, mas sim em terra, na chamada Fazenda Boa Vista. O Aqui tem História dessa semana vem contando sobre as origens da descoberta do petróleo na nossa região, o pioneiro no processo de prospecção e ainda muito mais.

Descoberta em terra – a Fazenda Boa Vista

Para surpresa de muitos, o petróleo em Campos foi descoberto em terra e não em alto mar, como muitos imaginam. Em 1918, o coronel Olavo Alves Saldanha, gaúcho e político influente, comprou a Fazenda Boa Vista, então pertencente à viúva do senador Pinheiro Machado, a senhora Benedita Brasilina Pinheiro Machado, paulista, conhecida como “Dona Nhanhã”. Pinheiro Machado, um dos políticos mais influentes e poderosos do Brasil, havia sido assassinado em 1915 por Francisco Manso de Paiva Coimbra, no Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo. Ao visitar a viúva de Pinheiro Machado, de quem era amigo, Olavo Saldanha teria se interessado em adquirir a Fazenda, o que acabou sendo realizado pelo valor de 1.200 contos de réis, contando a propriedade então com mais de 9 mil cabeças de gado. Sua extensão de 2.263 alqueires era tão grande que limitava por um lado com a Barra do Açú, no município de São João da Barra e, por outro, com a Barra do Furado, em Quissamã, portanto, cerca de 30 quilômetros de extensão que abarcava todo o litoral de São Thomé.

Considerado um dos políticos mais influentes da República Velha, José Gomes Pinheiro Machado, nascido no Rio Grande do Sul, era um fervoroso defensor da República no Brasil. Advogado por formação, foi eleito senador logo no início da República, participou da elaboração da Constituição de 1891, sendo também responsável pela criação do Partido Republicano Conservador, único até então de unidade nacional – e não estadual como era comum aos partidos republicanos. Com a eclosão da Revolução Federalista no sul do Brasil, foi comandante de divisão contra o movimento, recebendo, por isso, a patente honorária de general de brigada. Anteriormente, Pinheiro Machado havia lutado também, mesmo contra a vontade do pai, na Guerra do Paraguai.

            Seu assassino, Manso de Paiva, um desertor do exército e então padeiro, assumiu a culpa pelo crime e sempre alegou ter agido por vontade própria, embora os jornais da época atestassem para a motivação política do crime, inclusive, fazendo indicações contra Nilo Peçanha, inimigo político do senador, embora antes tivessem sido amigos. Há suposições de que em virtude da amizade com Nilo, campista e natural de Morro do Coco, é que Pinheiro Machado teria conhecido a região.

Vale lembrar que originalmente, a área da Fazenda Boa Vista pertencia aos vastos campos da Companhia de Jesus, recebidos em 1648 através de escritura de composição realizada entre eles, os beneditos, o general Salvador Correia – governador do Rio de Janeiro, e alguns dos chamados Sete Capitães. A presença de diversos marcos de pedra da Cia de Jesus entre a Barra do Açu e o Farol de São Thomé atesta para o domínio dos jesuítas naqueles campos. No entanto, na correição realizada em 1730 pelo Ouvidor do Rio de Janeiro, Manoel da Costa Mimoso, para a medição das terras da então Capitania da Paraíba do Sul, aquela área aparece ligada aos domínios do visconde de Asseca.

Ocorre que apenas após a liberação da venda das propriedades do morgado do visconde de Asseca na região, em 1848, é que a Fazenda Boa Vista foi adquirida pelo Barão da Lagoa Dourada. Nesse período, segundo Waldir P. de Carvalho, a Fazenda Boa Vista chegou a ser visitada pela Princesa Isabel e seu marido, o Conde D’Eu, no ano de 1868. Depois da morte do Barão da Lagoa Dourada, em 1876, a fazenda passou às mãos de seu cunhado, Gregório Francisco de Miranda, Barão de Abadia, de que Pinheiro Machado adquiriu a Boa Vista dos herdeiros.

            A importância e influência do senador eram tamanhas, que a Estrada de Ferro Leopoldina estendeu sua linha até Santo Amaro, constituído em terminal e ponto final da linha, justamente para atender aos interesses do senador Pinheiro Machado. Ao comprar a Fazenda Boa Vista de porteira fechada, Olavo Alves Saldanha logo se estabeleceu com a esposa, Seraphina da Silva Saldanha, e filhos em Boa Vista. Para administrar a fazenda mandou vir do Rio Grande do Sul Euclides Pinto de Oliveira, homem de sua confiança.

Em 1922, após observar a presença de certa mistura oleosa em um dos poços de água da Fazenda, com forte cheiro de querosene e que uma vez seco e transformado em pequenas bolinhas, como bolinhas de barro, atirado fogo, a substância incendiava, Olavo Saldanha se associou ao Grupo Henrique Laje para realizar prospecções no local. O próprio Olavo antes por sua própria conta realizou prospecções no local da vala onde se encontrava a tal mistura oleosa, mas certo da necessidade de se realizarem pesquisas mais a fundo, é que procurou se associar a Henrique Laje. Portanto, é falsa a notícia corrente de que Olavo Saldanha teria se associado ao amigo Pinheiro Machado para realizar as perfurações em sua fazenda, uma que o senador fora assassinado anos antes, em 1915.

            Henrique Laje, que esteve uma única vez na Fazenda, mandou uma grande máquina de perfuração por percussão, montada e acionada por um técnico norte-americano. Depois de um ano de trabalho, tendo atingido cerca de 200 metros de profundidade, um dos canos da máquina de perfuração sofreu explosão, empenando o maquinário. Sem esperanças de encontrar o “ouro negro”, os trabalhos foram interrompidos. Henrique Lage intentou comprar ou arrendar o subsolo da Fazenda, e diante da falta de consenso entre ele e o fazendeiro Olavo Saldanha, o poço foi lacrado.

Depois da morte de Olavo em 1927, os herdeiros dividiram a fazenda, vendendo tempos depois a sede para pessoas da região. Passado alguns anos, a família Saldanha readquiriu a sede da fazenda, ficando aos cuidados de Paulo Saldanha, mas uma série de saques e depredações foi realizada em seu interior, inclusive da excelente madeira da construção, o que acabou por causar um incêndio de largas proporções que acometeu toda a edificação. Deste incêndio, apenas restou da construção original uma pequena torre que hoje podemos ver quando passamos pela rodovia Campos-Farol, RJ-216.

            Foram necessários alguns anos a mais, até que o geólogo Alberto Ribeiro Lamego, filho do ilustre Alberto Lamego, publicasse uma série de estudos dando conta do alto valor da região com seu vasto manancial petrolífero. Assim, além da Fazenda Boa Vista, foram encontrados vestígios de petróleo na região do Xexé, em Farol de São Tomé, e em outras, como o bairro do Turfe Clube no chamado Morro do Querosene e na cidade de São João da Barra. O Imbé também recebeu menções de ser uma área que contava com a presença de certo “óleo negro que pegava fogo”, como então se dizia.

            A região do Xexé foi a que recebeu maiores atenções devido ao forte potencial petrolífero. Assim, lá foram realizadas algumas prospecções, o que justifica a presença de alguns poços lacrados na região. Em 1959, a perfuração de um poço estratigráfico recebeu o presidente da Petrobrás à época, Idálio Sadenberg, e do governador do Rio de Janeiro, Roberto Silveira. Não se sabem os motivos, mas as pesquisas de exploração no Xexé foram interrompidas, enquanto cresciam as investidas no mar em regiões como Atafona e no próprio Farol de São Tomé.

            Cabe lembrar que após grande campanha denominada “O Petróleo é nosso”, a Petrobrás já havia sido criada desde 1953 por Getúlio Vargas. Em 1973, um mergulhador francês chamado Jean Pierre foi o responsável por declarar que o litoral campista era rico em presença de petróleo, em campo localizado a cerca de 80 quilômetros do litoral. Assim é que foi estabelecido em 1974, quando era prefeito José Carlos Vieira Barbosa – Zezé Barbosa, o primeiro campo da região, chamado Garoupa, levando apenas um ano depois à exploração por empresas privadas, sendo a produção realizada pela Petrobrás. Ainda poucos anos depois, em 1977, começou a operar o Campo de Enchova que produzia a uma profundidade de 120 metros, com uma produção de 10 mil barris por dia.

            Em 2008, com a descoberta do Pré-Sal, o navio-plataforma P-34 extraiu no Campo de Jubarte, na Bacia de Campos, o primeiro óleo da camada Pré-Sal do Brasil. Vale lembrar também, que atualmente a Bacia de Campos possui 55 campos, localizados entre o sul do Espírito Santo até Cabo Frio, com uma produção média diária de 1,49 milhão de barris de óleo, além de produzir também cerca de 22 milhões de metros cúbicos de gás por dia.

            Com a instalação da Petrobrás em Macaé em finais da década de 70, coube a esta cidade o título de “capital brasileira do petróleo”. Deve-se levar em conta também que em Macaé estão localizados os maiores campos de extração – Marlim, Marlim Sul e Roncador. À língua pequena corre a informação de que à época a Petrobrás não pode se estabelecer em Campos por pressões realizadas pelos usineiros, mais interessados em manter uma mão de obra barata e não qualificada.

 

*Se você gostaria de ver imagens antigas da Fazenda Boa Vista e dos primeiros registros de exploração do petróleo em solo campista, visite o Instagram e Facebook do Arquivo de Campos.

 

* Agradecimentos especiais a João Pimentel, que gentilmente compartilhou o seu acervo de imagens conosco, e a Serafim Braga, bisneto do coronel Olavo Saldanha, com o qual também conversamos a fim de dirimir importantes dúvidas.

Rafaela Machado

Professora e Diretora do Arquivo Público Waldir Pinto de Carvalho

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