Segunda-feira, 10 de agosto de 2020
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Dois homens assassinados na noite deste domingo em Campos

Dois homens foram assassinados na noite deste domingo (09/08), próximo ao Ciep Wilson Batista na Avenida Campista, no Parque Guarus, em Campos. Equipes do Corpo de Bombeiros estiveram no local, mas os homens já estavam sem vida. Ainda não há informações dos nomes das vítimas.. Policiais Militares estão no local que já foi isolado. Não há informações da motivação e autoria dos homicídios.. ... continuar lendo

Aqui tem história

Rafaela Machado

Benta Pereira: a heroína dos campistas

21/06/2020 às 01h24 22/06/2020 às 10h29

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Reprodução
''Qual campista já não ouviu falar em Benta Pereira? Mas, você sabe quem foi esta mulher e qual feito tão importante teria feito ela para herdar o título de ?heroína dos campistas?? É sobre ela que nós vamos falar hoje!?
Benta Pereira é uma das figuras mais célebres da história de Campos dos Goytacazes. Conhecida por muitos como a “heroína dos campistas”, Benta tornou-se símbolo da luta empreendida pelos habitantes da então Vila da Paraíba do Sul, no famoso levante ocorrido naquela capitania no ano de 1748, contra o então donatário 4º Visconde de Asseca. Muito se discute atualmente, inclusive nos meios acadêmicos, qual teria sido o real papel desempenhado por Benta Pereira e por sua família, os Manhães Barreto, na série de acontecimentos que culminaram com o levante.

Mergulhada em versões que por vezes elevam a sua figura a uma posição de heroína, matrona dos campistas, e outras que tendem a diminuir, quando não menosprezar o papel articulador desempenhado por ela naqueles acontecimentos, Benta ainda precisa ter sua história melhor conhecida por nós. 

 

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A descoberta da documentação

No ano de 2015, passados então 267 anos do levante, a Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes descobriu em um de seus cofres, originalmente do Cartório do Segundo Oficio, documentos manuscritos que datavam dos séculos XVII e XVIII, desaparecidos por cerca de 70 anos. Após cuidadosa averiguação, foram realizadas análises documentais acerca da composição do papel, da tinta e dos tipos de letra, assinaturas, presença de carimbos, selos, sinetes e marcas d’água, a fim de confirmar a originalidade e autenticidade de tais documentos que se diziam ser de Benta Pereira de Souza, seu marido Pedro Manhães Barreto e sua filha, Mariana de Souza Barreto. Após essa cuidadosa averiguação, constatou-se que, de fato, os documentos em questão eram autênticos e originais. 

Sobre Benta Pereira, podemos afirmar que sua documentação constava de três volumes, a saber: testamento datado de 1752, inventário produzido em vida com data de 1757, e inventário post-mortem datado de 1761, em estado razoável de conservação, com exceção das primeiras páginas, e de algumas outras que continham danos que levaram à perda de informações e do suporte. 

A partir das informações contidas nessa documentação foi produzido o livro “Benta Pereira em documentos: testamento e inventário”, permitindo-nos escrever sobre a “heroína dos campistas” através de sua própria apresentação, de seus problemas e mazelas, de sua fé e crença, como também pela sua forma de enxergar o mundo.

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Quem foi Benta Pereira?

Benta Pereira de Souza nasceu na freguesia de São Salvador dos Campos dos Goytacazes em 1675. Era filha legítima de Domingos Pereira da Cerveira e Isabel de Souza. Vale ressaltar que Domingos Pereira da Cerveira, após chegar a Campos, vindo da região do Rio de Janeiro, foi camarista e tenente, tendo-se casado duas vezes. Quando enviuvou pela segunda vez, então de dona Isabel, é que ordenou-se padre. 

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Em 1713 ficou viúva de Pedro Manhães Barreto, com quem se casara entre os anos de 1695 – 1700, na Igreja de São Salvador, mesma igreja em que no ano de 1703, batizou o segundo o filho do casal - Francisco Manhães Barreto, sendo este apadrinhado pelo avô materno e pela tia Joana Rosa. Logo, aos 38 anos assumiu a responsabilidade de gerenciar seus bens e de criar os então seis filhos:

João Álvares Barreto 

Francisco Manhães Barreto 

Páscoa de Souza – Casada com João de Andrade Leitão, já viúva na ocasião do falecimento de sua mãe.  

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Mariana de Souza Barreto – Casada com Jerônimo Ferreira de Azevedo, já viúva na ocasião do falecimento de sua mãe.  

Domingas Pereira da Cerveira – Casada com João Francisco Travassos, já viúva na ocasião do falecimento de sua mãe.  

Manoel Manhães Barreto – testamenteiro e inventariante dos bens da mãe. 

 

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Sobreviveu aos filhos João Alvares Barreto, que morreu solteiro e sem deixar herdeiros, e ao filho Francisco Manhães Barreto, que já viúvo deixou três filhos menores – de nomes João, Paula e Theodoro. 

Benta Pereira era senhora possuidora de terras, gado então chamado vacum e cavalar, escravos, engenhoca no sertão do Itaoca, propriedades em São Gonçalo – atual 

Goitacazes e que ainda conserva a paróquia local denominada de São Gonçalo - e casas no centro da cidade, inclusive em frente à Cadeia, o que demonstra que era considerada de boa situação financeira para os padrões da época. Apesar disso, seu pecúlio, que somava quase 5 contos de réis, estava comprometido em um processo de agravo que contra ela e, posteriormente, contra seus herdeiros, era movido por dívidas contraídas em vida. 

Em seu testamento, feito em 1752, estando já bastante doente e de cama,  beneficiou afilhados, sobrinhos, escravos e fez doações em dinheiro e bens (terras e casas), também às ordens religiosas, como a dos jesuítas. Recomendou para si e para seus escolhidos uma centena de missas em favor de suas almas. Para garantir o perdão da sua alma e dos seus familiares, deixou esmolas para os pobres, para alguns parentes e para alguns outros escolhidos. Além disso, Benta Pereira doou aos Reverendos Padres da Companhia de Jesus “uns chãos que tinha na vila, junta ao rio e cadeia, e três lanços de casas já usadas de telha na mesma paragem”, de modo a garantir sua participação nos sufrágios meritórios da ordem como benfeitora. 

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Dizendo acreditar na Santa Igreja Católica, encomendou a alma a Santíssima Trindade, rogando a Virgem Maria e a todos os santos e a seu anjo da guarda que recebessem a sua alma. Mandou que seu corpo fosse amortalhado no hábito de São Francisco e sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Padres Jesuítas. 

Faleceu em 1760, então com 85 anos, em sua fazenda de Campo Limpo – situada na Estrada Real de São Gonçalo, sendo seu corpo sepultado na capela da fazenda de Nossa Senhora da Conceição e Santo Inácio, ou apenas Solar do Colégio, aos pés do altar do Divino Espírito Santo, onde se encontram os seus restos mortais até os dias de hoje. 

 

A participação dos Manhães Barreto no levante de 1748

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Os Manhães Barreto compunham prestigiosa família, com fortes relações inclusive no Rio de Janeiro, sendo conhecidos fornecedores de gêneros alimentícios, principalmente gado, para aquelas praças. João Alvares e Francisco Manhães Barreto, filhos de Benta, desde muito antes de 1748 aproveitaram-se das relações construídas tanto interna quanto externamente para tentar extrair riquezas e prestígio político. Soma-se a isso o fato de que, cada vez mais fortalecidos a partir da constituição de uma base sólida de relacionamentos – inclusive com o governador do Rio de Janeiro, Luiz Vahia Monteiro –, a família dos Manhães Barreto recorrentemente aumentava, segundo nos mostram os documentos, as reclamações contra a tirania dos sucessivos viscondes de Asseca. 

Certamente, os motivos iniciais que fizeram com que ela e muitos dos seus se voltassem contra os viscondes de Asseca estão relacionados às abusivas cobranças de impostos por parte destes, à tirania com que agiam e, posteriormente, às perseguições empreendidas contra seus filhos. Mas é preciso entender a participação de Benta Pereira e dos Manhães Barreto no levante de 1748 em contexto mais amplo, no qual em determinados momentos de ausência de poder do donatário, obtiveram pelas vias legais e, graças à importante e poderosa rede de alianças por eles tecidas, valiosas vantagens na Capitania, como a patente de capitão-mor adquirida por João Alvares Barreto, ou a arrematação do contrato do gado do vento por Francisco Manhães Barreto – 1729.  

O que se percebe é que o processo de lutas que teve seu auge com o levante de 1748 assentou raízes anteriormente, isto é, no intricado processo de ocupação da terra, principalmente, a partir de 1648 – quando se realizou escritura de composição entre o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides, dois dos chamados Sete Capitães, e as ordens religiosas dos beneditinos e jesuítas; e, fortemente em 1672 – com a doação da Capitania aos filhos de Salvador Correia; e de forma mais evidente, desde pelo menos 1730. A histórica e árdua luta de Benta Pereira de Souza, de seus filhos e dos moradores da Capitania contra os donatários viscondes de Asseca deram, finalmente, resultado quando, em 1754, a Capitania da Paraíba do Sul foi definitivamente anexada aos domínios da Coroa. Portanto, além de ter sido uma luta contra os Asseca, o processo que culminou com o levante de 1748 foi resultado de anos de luta pela terra.  

Assim, sua importância deve ser observada partindo-se do entendimento que aos 38 anos, tendo se tornado viúva e, então, senhora possuidora de terras e escravos, Benta Pereira assumiu para si a tarefa não só de cuidar dos filhos, mas também dos negócios familiares, estabelecendo em torno de si uma extensa parentela, proporcionada por laços de casamento ou compadrio e formada, além dos filhos e filhas, por genros e noras, netos e netas, sobrinhos(as), inúmeros afilhados(as) e agregados. A partir do entendimento desse tecido social e familiar, é possível entender como Benta Pereira soube e, principalmente, pôde, como mulher, assumir um importante e decisivo papel no desenrolar dos fatos que ao longo de muitos anos tiveram como resultado o referido levante, direcionando o papel de sua família e dessa extensa rede a ela ligada.

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Se Benta Pereira de fato pegou em armas e liderou ela própria, montada a cavalo pelas ruas de Campos, o famoso levante de 1748, não temos dados documentais que sejam satisfatórios para nos dar essa resposta. Mas isso tampouco importa, pois sabemos e, aí sim a partir de vasta documentação disponível, que Benta Pereira desde muito antes organizou severa resistência aos desmandos dos viscondes de Asseca, articulando em torno de si uma ampla rede de alianças, estabelecendo uma eficiente negociação pelas vias legais – quando se fazia necessário, enviando, inclusive, representantes a Lisboa, entre eles seu filho, Francisco Manhães Barreto, sendo ela a principal articuladora de reuniões em sua própria residência. Quando a luta pelas vias legais tornou-se insustentável e insatisfatória, ela, seus familiares, seus aliados e o grupo que se opunha ao visconde de Asseca, incluindo-se aí mulheres, pegaram em armas e lutaram eles próprios contra os desmandos da família que para eles representava a exploração, a usura e a ganância, através de anos de espoliação da terra.  

Como bem deixou registrado Alberto Lamego Filho, “À sua intrepidez e à fúria de seu povo, cavalaria, peões, escravos, os bandos do visconde, em completo se dispersam, e, batidos de rua em rua, debandam campo afora, em correria pela vida”. A luta daquele povo tardou, posto que não se iniciou ou aconteceu apenas em 1748, mas foi após esse episódio que a Capitania logo pôde se ver livre dos Assecas e passar pelas mãos do povo para o domínio da Coroa.  A importância do levante de 1748 e da participação de Benta Pereira de Souza deixou como símbolo, inclusive, a inscrição IPSAE MATRONAE HIC PRO JURE PUGNANT no brasão da cidade. Inscrição com a qual se diz que aqui as próprias mulheres lutam pelo direito. 

 

Quem sabe numa próxima coluna possamos falar sobre o importante levante de 1748 e sobre a importância de lutarmos para inserir esse acontecimento nos livros didáticos.

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* Em tempo: toda documentação referente a Benta Pereira encontra-se restaurada e disponível à pesquisa no Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho. 

* O que se registrou nessa coluna hoje é parte do livro Benta Pereira em documentos, de minha autoria. 

Fonte: Rafaela Machado

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