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Rafaela Machado

Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens: a destruição de uma das maiores relíquias em Campos

05/07/2020 às 07h30 05/07/2020 às 00h10

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Se você tem interesse em ver mais fotos da antiga Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens e da Santa Casa, acesse o Instagram do Arquivo Público de Campos.
A história da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens em nossa cidade, e junto a ela do primitivo Hospital da Santa Casa de Misericórdia, é um dos mais tristes episódios de destruição programada de um patrimônio histórico-arquitetônico de valor incalculável. Quem vê o atual edifício da Santa Casa de Campos e, ao lado dele, da discreta igreja em homenagem a Nossa Senhora Mãe dos Homens, talvez não imagine que, originalmente, Igreja e Hospital compunham um belíssimo conjunto arquitetônico localizado em plena praça principal da cidade.

No local, atualmente, um imenso edifício garagem que nem de longe faz lembrar a antiga construção histórica de finais do século XVIII. Por decisão que até hoje devemos nos cobrar, todo o conjunto arquitetônico foi posto abaixo nos anos 1961, mesmo depois de já tombado como patrimônio arquitetônico pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, desde1956. 

A Irmandade de Nossa Senhora Mãe dos Homens 

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Para entendermos a história que levou à construção da Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens em nossa cidade, e junto a ela do Hospital da Santa Casa de Misericórdia, torna-se necessário de início compreender como as irmandades foram constituídas no Brasil e, como até aqui chegou a Irmandade de Nossa Senhora Mãe dos Homens. 

A devoção à Mãe dos Homens tem origem em Lisboa, Portugal, tendo sido trazida ao Brasil por Lourenço de Nossa Senhora, irmão terceiro de São Francisco, na segunda metade do século XVIII. No entanto, no Rio de Janeiro, por exemplo, a devoção a Mãe dos Homens já era realizada desde o século XVII em rudimentar oratório de pedra, tendo a Irmandade de mesmo nome se constituído no século seguinte, em 1750. A Igreja por sua vez, teve capela erguida através de provisão régia do ano de 1752, mas suas obras prosseguiram por longos anos, sendo finalizadas apenas em princípios do século seguinte.  

De tal forma, podemos identificar as irmandades como associações formadas por leigos dedicadas a devoção de um santo ou santa. Ressalte-se que diferente das ordens terceiras e das confrarias medievais, as irmandades não estavam subordinadas a uma ordem religiosa. Como cada irmandade tinha autonomia para gerir seus bens e suas rendas, adquiridas majoritariamente através de doações e legados pios, essas instituições no Brasil, valendo-se da arte do “bem morrer” experimentaram – dependendo do santo de devoção e do segmento social que a ela se congregava -, relativa fortuna. Cada irmandade possuía um estatuto, também chamado de compromisso, que a regia e, neste documento estavam descritas as normas e regras de funcionamento da irmandade e as obrigações de cada um dos membros, bem como seus direitos. Os membros das irmandades eram chamados de irmãos ou irmãs e todo compromisso para ter validade legal, tinha que passar por aprovação régia. 

No geral, as irmandades serviam como elemento de socialização e solidariedade na prestação de auxilio espiritual e materialentre os irmãos, por exemplo, prestando os serviços de prover com dignidade os sepultamentos e os sufrágios às almas dos irmãos – por tantos anos quanto suas doações fossem suficientes. Das muitas irmandades estabelecidas em Campos, a Irmandade de Nossa Senhora Mãe dos Homens foi uma das que mais congregou figuras proeminentes política e economicamente, principalmente, para o exercício do cargo de provedoria, isto é, aquele que presidia a mesa diretora. Em verdade, além da própria hierarquia existente entre as diferentes irmandades, a participação em uma ou mais delas, era um dos elementos utilizados pelos atores políticos de época para sua inserção em negócios diversos. 

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A Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens em Campos 

Constituída nos primeiros anos sem sede própria, a Irmandade de Nossa Senhora Mãe dos Homens se estabeleceu inicialmente na Matriz de São Salvador, o que normalmente se dava com a instalação de um altar para devoção do santo ou santa de escolha. Logo depois, em 1786, deu início à construção da sua própria igreja, entrando esta em funcionamento logo no ano de 1790, embora não concluída. Junto à igreja ficava um pequeno hospital que fazia face com a rua, hoje Alberto Torres, antiga Estrada do Saco, formado à época, por uma pequena casa térrea e por alguns poucos leitos, mais próximo do que poderíamos chamar de uma enfermaria. 

Então, no dia 25 de julho daquele ano de 1790, foi firmado compromisso entre os irmãos da Irmandade, de que faziam parte os seguintes fundadores: Manoel da Fonseca Azevedo Castellão, Manoel Pereira Cardoso, Gonçalo de Souza Henrique, Joaquim de Santana Mondim, Bento José de Almeida, José Pereira dos Santos, Ignácio Pereira de Andrade, Custodio João da Costa, Antônio José de Castro, Francisco Barbosa Rodrigues, Manoel Alves de Jesus, Jeronimo Leite Braga, Roberto de Castro, Francisco Barbosa Rodrigues, Manoel Alves de Jesus, Jeronimo Leite Braga, Roberto Ribeiro, José Pereira Campello, Manoel Nunes de Aguiar, Antônio José da Silva Pessanha, Amaro Pereira da Silva, Timóteo de Almeida Ribeiro e Custodio José Nunes.
Em 1791, a rainha D. Maria I de Portugal, aprovou o compromisso dessa Irmandade, que passou a ter a sua existência legalmente reconhecida, obtendo neste ponto os privilégios da Misericórdia do Rio de Janeiro. Cabe ressaltar que as Misericórdias no Império Ultramarino Português seguiam as regulamentações e protocolos ditados pela Santa Casa de Lisboa, que funcionava assim como espécie de “Casa Mãe” para as demais. Tinham os mesmos direitos e privilégios desta, sendo os da Santa Casa de Misericórdia de Campos confirmados pela rainha D. Maria I por alvará de 1806.

Foi seu primeiro provedor entre 1793 e 1794 o Mestre de Campo José Caetano Barcellos Coutinho – que além mestre de campo, era coronel de milícia, alcaide de São João da Barra, rico fazendeiro na região de Macaé e Quissamã; entre 1794-1795 o Ouvidor da Capitania do Espírito Santo, de onde também era natural, Dr. José Pinto Ribeiro; entre 1795-1796 José Francisco da Cruz; entre 1796-1798 o português alferes Joaquim Vicente dos Reis – arrematante da Fazenda de Nossa Senhora da Conceição e Santo Inácio, antiga fazenda dos jesuítas em nossa região; e entre 1798-1799 o Sargento-mor, negociante e fazendeiro, Gregório Francisco de Miranda. Eram todos membros da mais alta estirpe da sociedade campista. 

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No ano de 1805, resolveram os irmãos construir hospital mais cômodo no lugar em que ficavam antes as enfermarias e a botica, ficando encarregado para tal o irmão capitão Manoel José Ribeiro de Azevedo. Essa foi a primeira tentativa de se erigir o hospital, posto que em 1810 ainda não se tinham dado princípio às obras. Em dezembro de 1825 teve início o arruamento para a construção do novo hospital, “no canto que faz frente para a Praça por um lado, e por outro para a rua que margeia o rio Parahyba” (FEYDIT, 1900. p.342), recebendo para isto carta de doação da Câmara. 

Interessante notar que neste mesmo ano de 1810, teve também início a construção de um corredor na parte lateral da Santa Casa, com a finalidade de servir de asilo aos pobres. Tinha em extensão o correspondente à capela-mor, ficando do lado oposto - da parte do rio. O irmão Jerônimo Fernandes Guimarães, Barão de Santa Rita a partir de 1847, proprietário da Fazenda do Queimado, ofereceu os materiais precisos para a obra. Era natural de Portugal, chegando ao Brasil na nau “Vasco da Gama” em companhia de seu tio Antonio Luiz Pinheiro. 

Sob a provedoria do Capitão Luiz Antonio de Siqueira, mais tarde Barão de Itabapoana, as obras de construção do novo hospital tiveram novo impulso com vultosas contribuições dos beneméritos da Irmandade. 

Em novembro de 1831, sendo provedor o tenente-coronel Gregório Francisco de Miranda, foi colocada pedra fundamental para a construção do novo hospital e da casa dos expostos. As obras foram interrompidas logo depois, em virtude da grande enchente pela qual passou a Vila no ano de 1833, e dos prejuízos por ela causados. A inauguração do novo hospital foi feita apenas em 1º de julho de 1838, na passagem da provedoria do Dr. José Francisco Vianna – neto de Joaquim Vicente dos Reis e filho de Paulo Francisco da Costa Viana e Maria Joaquina do Nascimento Reis -, a Manoel Joaquim Pereira Batista, portanto, trinta e três anos após os esforços iniciais para a construção do mesmo. 

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Era preciso ainda ampliar as enfermarias e dormitórios para as órfãs, para o que solicitou a Irmandade à Assembleia Provincial a dotação de 4:800$000 réis e que se requeresse à Assembleia Geral Legislativa contribuição em benefício ao hospital que equivalesse aos marinheiros que navegassem de qualquer porto do Império ao porto de São João da Barra, uma vez que eram estes, isto é, os marinheiros, os que mais se hospitalizavam na Santa Casa. 

O pequeno cemitério da Irmandade ficava nos fundos da Igreja e, por questões de salubridade, os irmãos logo adquiriram outro terreno mais distante da Vila para os enterramentos. Assim, no ano de 1812 foi adquirido o terreno na então estrada que seguia para Nossa Senhora do Saco, em terras pertencentes ao Mosteiro de São Bento e foreiras à Câmara Municipal. O novo cemitério, chamado pelos africanos de “Quimbira”, foi murado em 1826, quando era provedor Manoel Pinto Neto da Cruz, Barão de Muriaé a partir de 1846, e ficava em terras onde hoje está a Faculdade de Medicina de Campos.

As “crianças enjeitas”, isto é, aquelas que por um motivo ou outro não podiam ser cuidadas por suas mães ou seus familiares, eram entregues aos cuidados da instituição, muitas vezes sendo colocadas na chamada “roda dos expostos” para que suas mães não tivessem suas identidades reveladas. Por volta de 1830, era possível observar que o número de crianças abandonadas aumentava sempre, com contínua dificuldade de se encontrar quem se quisesse amamentá-las ou criá-las até os dois anos de idade. Os “enjeitados” e “expostos” em geral, eram entregues aos cuidados de senhores responsáveis pelos seus cuidados e criação mediante pequeno pagamento mensal. Segundo nos revela Alberto Lamego, na obra “História da Santa Casa de Misericórdia”, a mensalidade de costume era de cinco patacas, equivalente de 2$560 réis, sendo, por isso, elevada neste período a 10 patacas, ou 3$200 réis. Em 1834, ficou resolvido que os expostos que atingissem oito anos e as expostas que atingissem doze anos não teriam mais direito a qualquer quantia a título de alimentação ou vestuário. 

Em 1844, os expostos do sexo masculino eram mantidos na Santa Casa até a idade de dez anos, idade a partir da qual eram entregues ao Arsenal de Guerra da Marinha (Portaria do Presidente de Província de 1844). Em 1825, por exemplo, eram 81 o número de crianças “espalhadas” aos cuidados de senhoras que recebiam os pequenos proventos da Irmandade. 

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Em 1848, estava em fase de construção a parte do edifício destinada ao recolhimento das expostas maiores de sete anos que se encontravam sob os cuidados das “amas”. Conta-nos Alberto Lamego que em 1864, as recolhidas da Santa Casa já viviam nas dependências anexas à enfermaria e, por caridade, recebiam instrução primária do professor francês Carlos Frederico Renne, além de 200$000 de dote que recebiam quando saiam do recolhimento para casar. 

Para melhorar a situação das órfãs, o Dr. José Gomes da Fonseca Parahyba, que exerceu o seu mandato por nove anos, requereu a doação da Igreja de Nossa Senhora da Lapa e Seminário, apelando ao Bispo do Rio de Janeiro, Conde de Irajá, recebendo a igreja e casas anexas em 1864 para servir de asilo às órfãs, sendo nesse momento para lá transladadas 21 meninas. Foram fundadores da Igreja de Nossa Senhora da Lapa e Seminário, o Padre Angelo de Siqueira e o Frei Manoel da Cruz, no ano de 1748. 

A destruição

Em 13 de setembro de 1961 a Santa Casa de Campos, foi posta abaixo, mesmo tendo antes sido considerada bem patrimonial tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1956. Na verdade, através de despacho presidencial assinado por Jânio Quadros, alguns meses antes da demolição, o patrimônio que dava corpo ao antigo conjunto arquitetônico da Santa Casa de Misericórdia e Igreja Mãe dos Homens foi um dos raros casos de “destombamento” pelo IPHAN, ou seja, revogando-se o tombamento, e transferindo-se tal conjunto arquitetônico – Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens e Hospital Santa Casa de Misericórdia - para o endereço atual. 

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À época, o provedor da Santa Casa, Manoel Ferreira Paes, expressou descontentamento com o tombamento e com os prejuízos financeiros que este causara à instituição, mesma opinião do governador Celso Peçanha, de quem Ferreira Paes recebeu apoio para proceder ao famigerado “destombamento”. De tal forma, mesmo debaixo de protestos do IPHAN, na pessoa de Rodrigo Mello Franco de Andrade, justificava-se que o “destombamento” do conjunto arquitetônico e sua consequente demolição, dariam lugar a um novo empreendimento comercial, diga-se de passagem, apenas construído em 2012. 

Aliás, é importante ressaltar que à época da destruição da Igreja Mãe dos Homens e da Santa Casa, grande parte da opinião pública e dos formadores de opinião era sim favorável à destruição do conjunto arquitetônico. Estando fora do arruamento, acusavam o edifício de “velho”, “antiquado” e de prejudicar o progresso do centro da cidade. Como somos eternamente responsáveis por aquilo que fazemos, Campos paga hoje o preço de ter perdido um dos mais belos edifícios de sua história. Quando, enfim, o edifício foi posto abaixo, comemorava-se em matéria de jornal estar a cidade livre do velho para o surgimento do novo! O velho em questão era o conjunto arquitetônico composto pela Igreja Mãe dos Homens e pelo Hospital da Santa Casa. O novo, bem, o novo vocês já sabem e bem conhecem. 

Cabe lembrar que no Brasil são poucas as igrejas erguidas em homenagem a Mãe dos Homens. Depois de demolida, muitos bens pertencentes ao patrimônio da Igreja foram enviados para locais diversos – como o Convento da Lapa ou ainda para um arquivo da própria Santa Casa -, e muitos outros desapareceram, como a coroa que ficava no frontão da fachada e que está até hoje desaparecida. 

Se você tem interesse em ver mais fotos da antiga Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens e da Santa Casa, acesse o Instagram do Arquivo Público de Campos. 

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Para saber mais: 
LAMEGO, Alberto. História da Santa Casa de Misericórdia. Campos dos Goytacazes: Edição do Autor. 1951.
FEYDIT, Júlio. Subsídios para a História dos Campos dos Goytacazes. Campos dos Goytacazes: J. Alvarenga &Company. 1900. 

Fonte: Rafaela Machado

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