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Mortes de idosos por Covid-19 deixa 5 milhões de adultos e crianças sem renda

25/08/2020 às 11h43

Para milhares de famílias brasileiras, a dor da morte dos pais ou avós por causa da pandemia do novo coronavírus
Para milhares de famílias brasileiras, a dor da morte dos pais ou avós por causa da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) vem acompanhada do medo de não ter dinheiro nem para comer nos próximos meses. É que nessas famílias, a única fonte de renda são os rendimentos dos idosos, seja o Benefício de Prestação Continuada (BPC), a aposentadoria ou o trabalho.

O estudo da economista e pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), “ Os dependentes da Renda dos Idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres? , mostra que se as mortes por Covid-19 continuarem neste patamar de mil por dia, em média, estarão em risco os rendimentos de 4 milhões de adultos e um milhão de crianças e adolescentes até 15 anos de idade.

A pesquisadora, que desde a década de 1990 estuda as consequências do envelhecimento e arranjos familiares, levou em conta os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostram que 12,9 milhões (18%) do total de domicílios brasileiros têm como única fonte de renda os ganhos dos idosos.

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De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, em 2018, dos 71,3 milhões de domicílios brasileiros, 33,9% tinham ao menos um idoso residindo. Nesses domicílios moravam 62,5 milhões de pessoas, das quais 30,1 milhões eram não idosas, sendo que 16,6 milhões não trabalhavam.

O idoso contribuía com 69,8% da renda destes domicílios e 56,3% de sua renda vinha de pensões ou aposentadoria. Em junho de 2020, a média do valor da aposentadoria foi de R$ 1.348,07, segundo o Boletim Estatístico da Previdência Social do Ministério da Economia.

Para a pesquisadora do IPEA, a Covid-19 mostrou a extrema importância dos benefícios sociais e da Previdência e da seguridade social para as famílias mais vulneráveis e para a economia do país. De acordo com ela, sem os rendimentos dos idosos deixaram de circular na economia, desde o início da pandemia, mais de R$ 103 milhões.

“Os idosos com mais de 60 anos representam 74% das mais de 100 mil mortes na pandemia. A doença afetou os idosos em duas vertentes: primeiro que eles morrem mais, segundo porque são os primeiros a perderem o emprego por pertencerem ao maior grupo de risco de contrair a Covid. Ou eles abandonam o trabalho por medo da doença ou são demitidos por preconceito do empregador”, diz Ana Amélia.

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Novas gerações são sustentadas pelos idosos, os nem-nem maduros

Segundo a economista do IPEA, desde que iniciou as pesquisas sobre arranjos familiares foi identificada uma mudança nos comportamentos. Hoje não são os filhos que sustentam os pais. É comum os filhos constituírem famílias, morarem com os pais, ou se separarem e voltarem para a casa.

Ana Amélia, que identificou em outros estudos a geração “nem-nem”, jovens de 15 a 29 anos, que moram com os pais, que não estudam e não trabalham, agora identifica outra geração nos arranjos familiares: os “nem-nem maduros”, homens e mulheres de 50 a 59 anos que moram com os pais, pressionando ainda mais a necessidade dos rendimentos dos mais idosos na manutenção do sustento das famílias.

“A pandemia só reforça esse tipo de arranjo familiar. As casas, que chamo de ninhos familiares, se antes ficavam vazios, normalmente com uma idosa morando sozinha, hoje a ordem mudou, até por conta dos empregos instáveis, da dificuldade de transição para a vida adulta e das relações afetivas que resultam em separações de casais”.

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Para ela, o desemprego, que segundo o IBGE, atingiu a taxa de 13,3% (12,8 milhões de pessoas demitidas) da população em junho, maior índice desde 2017, pode fazer ainda mais filhos e netos voltarem a morar com os pais e os avós, aumentando a pressão sobre a importância dos rendimentos dos mais velhos no sustento de suas famílias.

Crianças que moram com avós frequentam mais a escola

Ana Amélia que também foi a autora da pesquisa que identificou que 2/3 dos municípios brasileiros têm como sua maior fonte de renda as aposentadorias, até mesmo maior do que o repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), diz que à época outro dado importante foi identificado: as crianças que moravam com os avós, iam mais à escola.

“A aposentaria, principalmente a rural, ‘empoderou’ os idosos. Era comum ver nesses pequenos municípios placas oferecendo fiado apenas para quem recebia a aposentadoria do Funrural. Eram os idosos que tinham crédito nos mercadinhos locais, que podiam sustentar os netos e deixá-los na escola, sem que as crianças precisassem trabalhar como em outras famílias, sem rendimentos dos idosos”, conta a pesquisadora.

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Ana Amélia diz que é preciso chamar a atenção sobre o fato de a família ser a instituição mais forte nos momentos de fragilidade, seja econômica, seja na saúde. Por isso, segundo ela, é importante lembrar que na hora do oferecimento da vaga em um hospital durante a pandemia, entre um jovem e um idoso, é preciso que seja reconhecido o papel do idoso na sociedade.

“Eu lembro de uma médica contando o caso de um idoso de mais de 80 anos que disse a ela que não podia morrer porque precisava sustentar os dois netos”, conta a pesquisadora.

A importância das aposentadorias e benefícios nas economias dos municípios

Outro estudo de 2019, feito pelo Partido dos Trabalhadores (PT), mostrou que os benefícios da Previdência rural são maiores do que a soma de ISS e IPTU em 88% dos municípios do país, equivalem a 129% do FPM e a cerca de 100% da soma do ISS com o IPTU. Também são maiores do que o FPM em 49% dos municípios do país.

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Já o Benefício de Prestação Continuada (BPC), revela o estudo do PT, é maior que a soma do ISS e IPTU em 72% dos municípios.

A maior fonte de renda de 70% (3.875) dos 5.566 municípios brasileiros são os benefícios pagos pela Previdência Social, que superam, também, os repasses do Fundo de Participação dos Municípios.

Rosely Rocha / Da Imprensa da CUT


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