A liquidação extrajudicial do Banco Master revelou um dos episódios mais complexos e delicados da história recente do sistema financeiro brasileiro, envolvendo recursos públicos, omissão de autoridades regulatórias e a atuação de bancos e corretoras privadas.
Mais de R$ 32,7 bilhões em CDBs do Master foram vendidos a investidores de varejo, sendo R$ 26 bilhões pela XP Investimentos e R$ 6,7 bilhões pelo BTG Pactual, segundo apuração do E-Investidor. O volume corresponde a 65% da captação total do banco em 2024, um dado que evidencia o tamanho do risco acumulado.
Contudo, o que se revela é bem mais grave do que perdas individuais de investidores: trata-se de uma falha sistêmica envolvendo a omissão do Banco Central, a não fiscalização efetiva do TCU e a exposição de fundos "públicos" do FGC, que possui um terço de seus recursos provenientes da composição da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, conforme declaração do Ministro da Fazenda Fernando Haddad à jornalista Mira Leitão, na Globo News, em 15 de janeiro de 2026.
Em outras palavras, dinheiro do povo brasileiro está exposto a prejuízos, enquanto os bancos privados que lucraram com a venda dos CDBs não são responsabilizados, e o público que não recebeu 0,3% de comissão ou qualquer benefício direto terá que arcar com o custo de eventuais perdas.
Relatórios internos indicam que, desde 2024, o Banco Central tinha ciência de sinais de fragilidade do Banco Master. Alertas sobre liquidez, solvência e práticas de risco elevado foram enviados a órgãos de controle, mas não houve intervenção preventiva, permitindo que a instituição continuasse captando recursos e distribuindo CDBs a investidores desavisados.
Fontes próximas ao caso relatam que o BC adotou uma postura de cautela excessiva, justificando que qualquer ação poderia “desestabilizar o sistema”. Entretanto, especialistas apontam que essa postura deixou bilhões em risco, transformando uma situação que poderia ser controlada em um evento que mobiliza recursos públicos significativos.
O caso ganha uma camada adicional de complexidade ao envolver o Tribunal de Contas da União (TCU). Jornalistas de diversos veículos de comunicação, na imprensa escrita e falada, relataram que o TCU inicialmente demonstrou interesse em fiscalizar a atuação do Banco Central na supervisão do Master, mas recuou diante da pressão da mídia.
O detalhe central é que a maioria dos veículos de imprensa que pressionaram o TCU é financiada, direta ou indiretamente, por bancos privados, incluindo corretoras e instituições que lucraram com a venda dos CDBs do Master. Esse conflito de interesses levanta questões sérias sobre a independência da mídia e o controle público de informações estratégicas.
Embora a atenção inicial tenha recaído sobre XP e BTG, que distribuíram R$ 32,7 bilhões em CDBs, o ponto crítico não é apenas a atuação das corretoras:
As plataformas venderam produtos autorizados pelo Banco Central, com balanço auditado e classificação de risco por agências internacionais;
Investidores foram atraídos por altas taxas e cobertura do FGC, muitas vezes sem plena consciência dos riscos;
A comissão paga aos assessores, de cerca de 0,3% ao ano, criou incentivo para priorizar a venda de ativos de maior risco.
Mesmo que haja indícios de recomendação inadequada, a responsabilidade final recai sobre a estrutura regulatória que permitiu que esses produtos fossem distribuídos sem restrições.
O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) estima que o ressarcimento aos investidores do Master custe R$ 41 bilhões, atendendo 1,6 milhão de pessoas. Esse montante corresponde a 30% do “colchão” financeiro do fundo, expondo dinheiro público, composto em um terço pelo Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, a riscos significativos, conforme declaração de Fernando Haddad.
O episódio revela que investidores e contribuintes estão cobrindo perdas que poderiam ter sido evitadas com fiscalização ativa e medidas preventivas por parte do BC e do TCU.
Durante o processo, um youtuber que alertava sobre os riscos dos CDBs do Master foi censurado judicialmente, após liminar de um dos bancos distribuidores. O caso tem sido chamado de “liminar da madrugada”, e a medida suspendeu temporariamente a divulgação de alertas importantes, demonstrando uma estratégia de silenciamento de vozes independentes, dificultando a circulação de informações que poderiam proteger investidores e prevenir perdas.
Além das questões de supervisão, o episódio levanta indícios de irregularidades fiscais e criminais:
Movimentações suspeitas podem configurar lavagem de dinheiro;
A não declaração ou subdeclaração de receitas poderia caracterizar sonegação fiscal;
Incentivos a assessores de investimento podem configurar prática abusiva ou conflito de interesse.
O MPF e o TCU têm atribuição para investigar, podendo responsabilizar gestores públicos, bancos e corretoras envolvidas.
Economistas, advogados e planejadores financeiros destacam que:
Investimentos cobertos pelo FGC não são isentos de risco, especialmente quando há concentração de recursos em bancos médios e pequenos;
A omissão do Banco Central e a recuada fiscalização do TCU criaram uma lacuna que permitiu o crescimento acelerado do risco sistêmico;
Há necessidade de transparência completa sobre a origem dos recursos, limites de cobertura e riscos efetivos, algo que foi negligenciado no caso Master.
Sérgio Werlang, ex-diretor do BC, e Jairo Said, ex-presidente do Conselho de Administração do FGC, defendem limites claros de rentabilidade atrelada às emissões dos bancos, para evitar que títulos com altos retornos e alto risco dependam de cobertura pública.

E-Investidor, Daniel Rocha, 09/12/2025 – “XP e BTG venderam mais de R$ 32,7 bilhões em CDBs do Master”
Entrevista de Fernando Haddad à Mira Leitão, Globo News, 15/01/2026
Comunicado nº 44.238, Banco Central, 18/11/2025
Diário Oficial da União, 19/11/2025
Relatórios internos do BC enviados ao TCU, dezembro 2024 / janeiro 2025
Especialistas e advogados citados no Estadão, dezembro 2025
Cobertura de imprensa sobre censura judicial a youtuber denunciando risco de CDBs, dezembro 2025
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