Há algo de singular, e profundamente brasileiro, na discussão sobre sucessão política quando o titular do poder continua vivo, ativo e, sobretudo, competitivo. Lula tem 80 anos, é o atual presidente da República e caminha, tudo indica, para sua última disputa presidencial como favorito. Isso não é detalhe biográfico. É dado político central. O PT vive, hoje, a paradoxal situação de administrar uma herança cujo patriarca ainda governa a casa.
É a chamada herança de pai vivo. E ela pesa.
Lula não é apenas um líder histórico do PT. Ele é o PT. Seu capital político, eleitoral e simbólico é incomparável dentro do partido. O lulismo não foi um subproduto da sigla. Foi o seu motor. Sem Lula, o PT jamais teria alcançado o Planalto e, sem Lula, dificilmente manterá a mesma gravidade eleitoral. Eis o dilema.
O problema é que heranças políticas, diferentemente das patrimoniais, não se resolvem com inventário. Resolvem-se com voto, carisma e capacidade de mobilização. E nisso Lula ainda reina absoluto. Nenhum nome petista consegue, hoje, ocupar esse espaço sem parecer uma cópia pálida ou um gestor de transição.
O PT sabe disso. E Lula também.
Por isso, o partido vive uma sucessão silenciosa, quase envergonhada, feita de testes controlados, cargos estratégicos e exposição gradual. Não há delfim declarado. Não porque faltem ambições, mas porque sobra Lula.
Entre os nomes mais citados para essa herança estão:
Fernando Haddad, o herdeiro técnico. É o mais preparado do ponto de vista econômico, o mais palatável ao mercado e o mais testado eleitoralmente após São Paulo e o Ministério da Fazenda. Mas carece do que nunca se aprende em curso algum, carisma popular de massas.
Rui Costa, o operador. Ex-governador da Bahia e hoje chefe da Casa Civil, tem poder interno, trânsito no partido e boa relação com Lula. É gestor, não encantador. Forte no bastidor, frágil no palanque.
Gleisi Hoffmann, a guardiã do partido. Representa a ala orgânica, ideológica, fiel ao núcleo duro do PT. Tem controle partidário, mas rejeição elevada fora da bolha militante.
Camilo Santana, o moderado nordestino. Ex-governador do Ceará e ministro da Educação, agrada pela gestão e pelo perfil conciliador, mas ainda é pouco conhecido nacionalmente.
Jaques Wagner, o veterano. Respeitado, experiente, articulado. Mas seu tempo político coincide com o de Lula. Pertence à mesma geração que se despede.
Há ainda apostas mais remotas, como Wellington Dias, ou até nomes que orbitam o campo lulista sem serem propriamente do PT. Porque, no fundo, o partido já percebeu que talvez o sucessor de Lula precise ser menos petista e mais lulista.
A verdade incômoda é esta. Lula não está preparando um sucessor. Está preparando o país para funcionar enquanto ele ainda está no comando. O depois é problema alheio, ou, mais precisamente, problema do PT quando não houver mais Lula para resolver.
Se vencer mais uma vez, Lula encerrará sua trajetória como o maior líder popular da história republicana. Mas deixará ao partido uma tarefa ingrata, provar que é maior do que seu fundador. Até agora, não conseguiu.
Heranças de pai vivo são assim. Ninguém ousa disputar o trono enquanto o rei ainda respira, sobretudo quando o rei ainda vence eleições.
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