Sábado, 24 de janeiro de 2026
Opinião

Pirâmide, risco moral e silêncio seletivo: o caso Master expõe contradições da imprensa

Se a estrutura era insustentável, a responsabilidade não termina no emissor

Por Fabrício Freitas
23/01/2026 às 21h23

Pirâmide financeira baseada no FGC, venda agressiva de CDBs e silêncio seletivo da imprensa. Caso Banco Master escancara contradições do sistema financeiro e do jornalismo econômico / Foto: Arte/ Revista Piauí

As declarações recentes dos jornalistas Joel Pinheiro da Fonseca e Demétrio Magnoli, feitas no programa Em Pauta da GloboNews, colocaram o Banco Master no centro de um debate que vai muito além da liquidação de uma instituição financeira. As falas expõem contradições relevantes não apenas no modelo de negócios do banco, mas também no papel das grandes plataformas financeiras e da própria cobertura da mídia corporativa sobre o sistema bancário brasileiro.

Joel Pinheiro afirmou que ficou claro tratar-se de um modelo de negócios baseado no Fundo Garantidor de Créditos, estruturado de forma agressiva e insustentável, explorando o chamado risco moral. Segundo ele, ao saber da existência de um colchão de segurança, o Banco Master teria assumido riscos excessivos, transferindo parte relevante do custo potencial ao sistema bancário e, em última instância, aos correntistas de outros bancos. Na sua leitura, o modelo se sustentava sobre dois pilares: a socialização do risco via FGC e a exposição indireta do contribuinte, por meio de instituições públicas envolvidas no socorro ao sistema.

Demétrio Magnoli foi além. Para ele, o que vem sendo chamado de modelo de negócios deveria ser descrito como uma pirâmide financeira baseada no Fundo Garantidor de Créditos. Ao empregar essa expressão, Magnoli desloca o debate do campo técnico para o campo político e institucional, ao sugerir que a estrutura dependia da expansão contínua da captação, lastreada mais na garantia pública do que na solidez econômica do emissor.

A gravidade da crítica, no entanto, impõe uma consequência lógica que tem sido tratada com cautela por parte da imprensa econômica. Se a estrutura era uma pirâmide ou um modelo conscientemente insustentável, a responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente ao Banco Master. Ela se estende, necessariamente, aos principais canais que viabilizaram a venda desses títulos ao público.

Reportagem do E-Investidor apurou que XP e BTG Pactual venderam, juntas, mais de R$ 32,7 bilhões em CDBs do Banco Master, o equivalente a cerca de 65% de toda a captação do banco por meio desses instrumentos. A XP liderou as vendas, com aproximadamente R$ 26 bilhões, enquanto o BTG distribuiu cerca de R$ 6,7 bilhões. Em ambos os casos, a garantia do FGC foi apresentada como elemento central de segurança para o investidor de varejo.

Esse dado impõe uma pergunta incontornável. Se o modelo era estruturalmente falho, baseado em risco moral ou, como afirmou Magnoli, uma pirâmide financeira, como dissociar os maiores distribuidores da engrenagem que sustentou o sistema? A mesma lógica crítica aplicada ao emissor precisa alcançar quem promoveu, recomendou e lucrativamente distribuiu esses títulos, muitas vezes utilizando a proteção do FGC como argumento publicitário decisivo.

O debate ganha contornos ainda mais sensíveis quando se observa a atuação da grande mídia. Os mesmos veículos que hoje amplificam críticas severas ao Supremo Tribunal Federal, sob o argumento de que nenhuma instituição pode estar acima do escrutínio democrático, adotaram postura radicalmente distinta ao tratar do Banco Central nas últimas semanas. Globo, Estadão, Folha de S.Paulo e outros construíram uma narrativa recorrente de superproteção à autoridade monetária, retratada como tecnicamente infalível, politicamente neutra e virtualmente incontestável.

É exatamente o argumento que Demétrio Magnoli agora critica ao se referir à nota do ministro Edson Fachin, quando aponta o risco de se equiparar uma instituição à própria democracia. A contradição é evidente. Se o Supremo não pode ser blindado contra questionamentos, por que o Banco Central foi tratado como intocável? Por que a crítica estrutural foi interditada quando envolvia juros, supervisão bancária e a ascensão meteórica de instituições como o Banco Master?

A questão se agrava quando se considera o financiamento da comunicação. Como confiar plenamente em veículos que silenciam ou minimizam o papel de XP e BTG em um episódio dessa magnitude, quando essas mesmas instituições são grandes anunciantes e financiadoras do ecossistema midiático? A desconfiança não nasce da retórica, mas da assimetria evidente no tratamento dos fatos.

O caso Banco Master revela algo mais profundo. No topo das pirâmides de poder contemporâneas, o sistema financeiro exerce influência não apenas sobre governos e reguladores, mas também sobre a formação da opinião pública. Questionar esse arranjo não é atacar a democracia. Ao contrário, é condição para preservá-la.

Se há algo que o episódio deixa claro é que não basta apontar o dedo para um banco liquidado. É preciso examinar todo o circuito de interesses que permitiu sua expansão, incluindo distribuidores, reguladores e os filtros editoriais da grande imprensa. A sociedade tem o direito de perguntar, desconfiar e exigir transparência. Qualquer coisa menos do que isso é aceitar que certos atores estão acima do escrutínio público.

Fonte: Por Fabricio Freitas

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