15 de março de 2026
Querido Brasil,
Hoje fiquei pensando em como um país pode ser tão grande e, ao mesmo tempo, caber dentro de tantas pequenas histórias. Às vezes parece que o Brasil é como uma casa enorme onde moram milhões de pessoas diferentes, cada uma com suas ideias, suas crenças, seus sonhos e até seus medos.
Talvez seja por isso que, de vez em quando, a gente acabe criando divisões. Algumas são visíveis, outras são invisíveis. Existem divisões de política, de opinião, de religião, de classe, de história. E quando percebemos, estamos discutindo com alguém que, no fundo, mora na mesma casa que nós.
O curioso é que o Brasil sempre foi um lugar onde cabiam muitos mundos ao mesmo tempo. Aqui rezam católicos e evangélicos, existem judeus e muçulmanos, há quem encontre Deus no silêncio e quem o encontre no canto alto das igrejas. Existem também os terreiros da Umbanda e do Candomblé, onde a espiritualidade dança junto com a memória dos ancestrais. Há espíritas, budistas, gente que acredita de muitas formas e gente que ainda está tentando entender no que acredita.
Talvez seja justamente essa mistura que nos faça ser quem somos.
Quando olho para o mundo lá fora, vejo países divididos por guerras e conflitos. Cada lado dizendo que está certo, cada lado defendendo sua verdade com tanta força que às vezes parece esquecer que, do outro lado, também existem pessoas. Eu sempre penso que quando alguém precisa matar para provar que tem razão, alguma coisa muito importante já se perdeu.
Por isso talvez eu prefira lembrar de outras coisas.
Lembro de um Brasil que parava inteiro para ver correr Ayrton Senna. Naqueles domingos parecia que o país respirava junto. Não importava de onde cada um vinha ou em quem votava. Por alguns minutos, éramos apenas brasileiros torcendo por alguém que representava nossa coragem.
Também lembro de quando o país ria junto com os Mamonas Assassinas. Era um tipo de riso leve, quase infantil, como se o Brasil inteiro tivesse descoberto que a alegria também pode ser uma forma de inteligência.
E lembro especialmente das Copas do Mundo. Das ruas pintadas de verde e amarelo, das bandeirinhas atravessando os postes, das crianças ajudando a colorir o asfalto como se estivessem desenhando o próprio país. Lembro das pessoas se abraçando nos gols, mesmo sem se conhecer. Era como se, por alguns dias, todos nós lembrássemos que pertencíamos ao mesmo lugar.
Talvez o Brasil verdadeiro seja esse: o país que se abraça.
Às vezes penso que crescer significa justamente isso, perceber que as diferenças existem, mas que elas não precisam virar muros. Podem ser apenas caminhos diferentes dentro da mesma paisagem.
Querido Brasil, eu gosto de imaginar que, apesar de todas as discussões e confusões, ainda existe dentro de nós aquele país que pinta as ruas, que canta junto, que ri das próprias loucuras e que acredita que o amor ao próximo não é apenas uma frase bonita, mas uma maneira de viver.
E talvez, se lembrarmos disso com mais frequência, a casa enorme chamada Brasil volte a parecer um pouco mais com um lar.
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