A Hospedaria dos Imigrantes de Campos dos Goytacazes: do europeu ao cearense

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Sexta-feira, 27 de novembro de 2020
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Historiadora e Diretora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho (APMWPC), atualmente faz Doutorado em História Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). É também mestre em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Possui experiência na área da História do Brasil Colonial e História Moderna, com ênfase no estudo dos séculos XVII e XVIII. Atua também na área da Paleografia e no Ensino de História Regional. É autora dos livros "Benta Pereira em documentos: testamento e inventários", "Notas Sobre a Fundação do Município de Campos dos Goytacazes", "Ex-presidentes da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes: império 1822-1889", entre outros. Tem desenvolvido suas pesquisas tendo como foco a história de Campos e região, em especial durante os períodos da Colônia e Império.

Rafaela Machado

A Hospedaria dos Imigrantes de Campos dos Goytacazes: do europeu ao cearense

A Hospedaria dos Imigrantes em Campos vigorou oficialmente entre março e outubro de 1889

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18/10/2020 às 08h16 18/10/2020 às 08h19

Reprodução
A Hospedaria dos Imigrantes em Campos vigorou oficialmente entre março e outubro de 1889

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Você já imaginou que Campos teve uma Hospedaria do Imigrante cujo principal objetivo foi a tentativa de atrair mão de obra europeia não apenas para substituir o trabalhador escravizado nas fazendas, mas também como forma de possibilitar certa política deliberada de branqueamento da população? A Hospedaria dos Imigrantes em Campos vigorou oficialmente entre março e outubro de 1889, mas longe de inspirar a vinda de imigrantes europeus, terminou por atrair a mão de obra de centenas de retirantes cearenses que fugiam da seca e da pobreza. 

 

No Brasil do século XIX as teorias de hierarquia entre as raças e de branqueamento da população - em sua maioria,apropriadas da “moderna” noção de raça proveniente do pensamento científico europeu e norte-americano -,encontraram fértil campo de desenvolvimento, disso resultando uma crescente defesa do discurso imigrantista e dos benefícios que a imigração europeia poderia trazer ao Brasil.

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Apropriado pela elite e pelos políticos, o discurso imigrantista e de branqueamento da população esteve, portanto, na pauta das discussões do século XIX. Contra a ideia que se formava dos trabalhadores libertos nacionais – depreciados como promíscuos e preguiçosos -, surgia afigura do imigrante – bom trabalhador, assíduo e considerado a solução para o problema da mão de obra no Brasil, trazendo ainda o “benefício” de promover com sua entrada um progressivo quadro de branqueamento da população. Em Campos, especialmente no jornal Monitor Campista, os imigrantes apareceram como a “solução para o problema brasileiro”. 

Nesse sentido, em finais de 1888 foi autorizado pelo Presidente da Província do Rio de Janeiro, o estabelecimento na cidade de Campos de uma Hospedaria de Imigrantes destinada ao alojamento de imigrantes que chegassem à região para se empregarem nas lavouras. Sujeita ainda em novembro daquele ano à aprovação do Ministério da Agricultura, começou a Hospedaria a funcionar já em princípios de 1889, uma vez que necessitava ainda de apresentação orçamentária e arrematação do prédio apropriado que deveria servir à manutenção do estabelecimento. 

Acalentando os desejos da pronta introdução de imigrantes no país, em sessão realizada em 15 de janeiro de 1889, a Câmara informava através de ata que havia chegado à cidade questionário encaminhado pelo Sr. Henrique Raffard, encarregado pelo governo imperial de estudar as condições da agricultura nesta província, no intuito de facilitar por todos os modos a introdução de imigrantes europeus. A Câmara comunicava ainda, que, estava o Sr. Raffard autorizado a receber os pedidos de imigrantes europeus de que careciam os estabelecimentos desta província.

No entanto, frente à perceptível pouca possibilidade que os fazendeiros tiveram em importar mão de obra internacional, a solução encontrada mesmo antes de se inaugurar a mencionada Hospedaria, foi preencher os quadros das lavouras com sujeitos também já conhecidos. À crise enfrentada pela indústria açucareira do nordeste e àdesenfreada procura por escravos empreendida pelo sudeste, somar-se-ia à seca que assolava a região desde a década de 1870 e que perduraria ainda por longos anos, definindo um quadro em que muitos retirantes ausentaram-se das suas terras em busca de trabalho em regiões mais prósperas do país.

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?Dessa forma foi que apenas para fevereiro do ano de 1889, em menos de uma semana, entraram para Campos 592 cearenses, tendo partido ainda do Rio de Janeiro no dia 20, “carregamento” com mais 371, totalizando naquele mês 963 cearenses que chegavam para ocupar postos de trabalho nas fazendas da região. Talvez certa euforia inicial causada com a chegada dos quase 1000 cearenses em tão poucos dias, somada à busca pelo imigrante estrangeiro, possam explicar que, já em março de 1889, tenha sido inaugurada a Hospedaria do Imigrante de Campos. 

Inicialmente, a existência da Hospedaria e o ideário imigrantista apareciam como solução para os problemas da lavoura canavieira. Apesar da euforia que a Hospedaria havia causado entre os fazendeiros locais, logo a 10 abrildaquele ano de 1889, o Monitor Campista noticiava a chegada “para a lavoura deste município e da de Macahépelo S. Diogo mais de 300 immigrantes cearenses”, identificando claramente – e mais uma vez - grande parte do tipo de imigração que se teria – cearenses, e não estrangeiros.

Ao levantarmos um quantitativo do quadro de entrada de imigrantes na Hospedaria de Macaé, nos foi possível ter acesso a alguns dados sobre Campos. Assim, de 25 de Janeiro a 30 de Abril de 1889, foram recebidos na Hospedaria de Imigrantes de Macaé 2320 indivíduos, destes:2060 brasileiros (88,8%), 260 estrangeiros (11,2%) - sendo destes 117 italianos (45%), 76 portugueses (29,23%), 63 espanhóis (24,23%) e 4 austríacos (1,53%). Dos 2060 brasileiros, 666 foram enviados para Campos, 498 para Madalena, 126 para Barra de São João, 7 para Nova Friburgo, sendo os demais distribuídos para estabelecimentos particulares de lavoura diretamente a partir Hospedaria de Macaé. Ou seja, dos 2060 brasileiros aportados em Macaé, mais de 32% tiveram como destino final a cidade de Campos. 

No entanto, no dia 26 de junho de 1889, surgem no Monitor Campista dados que nos permitem observar que entre 12 de fevereiro, mesmo antes de ser oficialmente criada, e 14 de junho de 1889, chegaram a Campos via Hospedaria dos Imigrantes 807 cearenses, 18 portugueses, 15 espanhóis, 14 italianos e 1 alemão, totalizando 855 indivíduos naquele período. Daqueles, 806 colocaram-se de imediato a serviços, 12 foram devolvidos por serem considerados inválidos, 22 faleceram e 15 espanhóis continuavam na Hospedaria – sem que saiba os motivos. Dos falecidos, todos eram cearenses, sendo que do total de 22 indivíduos mortos, 1 adulto - que faleceu de “tubérculos pulmonares” -, e 21 crianças. O elevado número de óbito entre as crianças foi consequência da epidemia de sarampo que se deu dentro da Hospedaria, agravado pela situação de depauperamento que com muita dificuldade tentavam resistiam. 

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Em um dos últimos registros sobre a movimentação da Hospedaria, é possível constatar que ao longo de todo o mês de julho de 1889, a mesma recebeu o pequeno número de 29 indivíduos, somando-se esses aos 47 que lá ainda estavam desde o mês anterior – sem se especificar a origem ou idade. Dos 29 que entraram, 13 eram italianos, 7 espanhóis, 5 cearenses e 4 franceses, somando, portanto, 76 hóspedes naquele mês de julho. Até finais do mês, todos os 47 sujeitos que existiam na Hospedaria desde o mês de junho haviam sido contratados, e dos que haviam chegado naquele mês de julho, apenas 8 italianos haviam se empregado – o que talvez possa ser revelador da predileção de algumas áreas da região por braços italianos para a lavoura.  

 

Certo é que, apesar de ter sido inaugurada ainda em princípios de 1889, consta-nos que a Hospedaria não gozou de muito sucesso, já que, ainda em julho daquele ano, já se falava sobre os excessivos gastos gerados por ela e dos poucos resultados apresentados. Ao longo dos poucos meses de sua curta existência, a Hospedaria dos Imigrantes de Campos foi responsável por abrigar oficialmente, pouco mais de 800 imigrantes, contando-se entre este número muitas crianças, enquanto àquela altura a Hospedaria de Macaé já havia recebido mais de 3000 imigrantes, entre brasileiros e estrangeiros. 

Em outubro de 1889, a Hospedaria dos Imigrantes de Campos fechava suas portas e, apesar da euforia inicial, não logrou grande sucesso na tentativa de introduzir um polo de imigrantes europeus na região. No período em que funcionou, serviu para abrigar, em sua maioria, retirantes cearenses que fugiam da seca e da fome do nordeste. Poucos foram os imigrantes europeus que se aventuraram por estas terras tendo em vista substituir o braço escravo. 

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Obviamente, o fechamento da Hospedaria não encerra a entrada de estrangeiros na região. Já vimos na estatística apresentada que, desde fevereiro, já se empreendia uma política de incentivos a entradas de imigrantes em Campos. A justificativa dada pelo presidente da província para suspender os serviços da Hospedaria estava engendrada num contexto maior: o fracasso da imigração subvencionada pelo governo. Nesse sentido, não apenas os serviços da Hospedaria na cidade eram suspensos, como o próprio Serviço Provincial de Imigração. 

Fonte: Historiadora Rafaela Machado

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