Evaldo Braga: ''O Ídolo Negro do Brasil'' esquecido pelo Brasil e por Campos

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Historiadora e Diretora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho (APMWPC), atualmente faz Doutorado em História Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). É também mestre em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Possui experiência na área da História do Brasil Colonial e História Moderna, com ênfase no estudo dos séculos XVII e XVIII. Atua também na área da Paleografia e no Ensino de História Regional. É autora dos livros "Benta Pereira em documentos: testamento e inventários", "Notas Sobre a Fundação do Município de Campos dos Goytacazes", "Ex-presidentes da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes: império 1822-1889", entre outros. Tem desenvolvido suas pesquisas tendo como foco a história de Campos e região, em especial durante os períodos da Colônia e Império.

Rafaela Machado

Evaldo Braga: ''O Ídolo Negro do Brasil'' esquecido pelo Brasil e por Campos

Ouça a história do campista Evaldo Braga contada pela historiadora Rafaela Machado

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10/05/2020 às 09h00 10/05/2020 às 00h29

Reprodução
Ouça a história do campista Evaldo Braga contada pela historiadora Rafaela Machado

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Acredito serem poucos os que em alguma passagem da vida já não ouviram a canção “Sorria, meu bem, sorria, da infelicidade que você procurou”, ou senão, partes da mesma que dizem “chorar pra que, chorar, você deve sorrir que outro dia será bem melhor”. Da mesma forma, acredito também que poucos sabem que essa música se tornou celebre na voz melodiosa de um campista com uma história digna de roteiro de filme. Estamos falando de Evaldo Braga, o ídolo negro do Brasil.

Pouco conhecido atualmente do público, o campista Evaldo Braga experimentou estrondoso sucesso nos anos 70 com músicas como “Sorria, Sorria”, “A cruz que carrego”, “Tudo fizeram para me derrotar” e “Eu não sou lixo”, entre outras. Com um fortíssimo apelo popular e conhecido como “O Ídolo Negro do Brasil”, Evaldo viveu uma carreira breve, porém muito intensa. Quando morreu, o cantor fazia cerca de 70 apresentações por mês. Até a sua morte, foram lançados dois discos LPS e seis compactos. Para se ter ideia do sucesso vivido pelo cantor, no ano de sua morte, foram inúmeras as participações em programas como Chacrinha e Silvio Santos, os mais populares da época.

Controversa história familiar

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Dono de uma voz inconfundível, Evaldo Braga nasceu em Campos dos Goytacazes no dia 26 de maio do ano de 1945. Suas letras e músicas, no melhor estilo Brega, retratam muito do gosto popular brasileiro e parecem refletir muito da sua própria vida quando criança e jovem.

 “Eu não sou lixo” parece reforçar crenças segundo as quais sua mãe, supostamente prostituta, teria jogado Evaldo ainda bebê em uma lata de lixo. O próprio Evaldo teria dado uma entrevista em que afirmou a história. No entanto, segundo alguns relatos, essa versão parece ter chegado até ele quando em uma das visitas que fez a Campos em busca do paradeiro da mãe biológica, teria ouvido o relato de um senhor, adotando-a então, por vezes, como verdadeira. O mais importante biógrafo do cantor e autor da obra “Eu Não Sou Lixo: A Trágica Histórica do Cantor Evaldo Braga”, Gonçalo Junior, conta que desde a morte de Evaldo muitas pessoas teriam se apresentado como mãe ou irmão deste, mas que nunca houve provas do parentesco.

No documentário “O ídolo negro”, realizado por Armando Mendes Filho (disponível no YouTube em três partes) sobre a vida do cantor e compositor, Antonio Braga se apresenta como irmão em busca do reconhecimento de parentesco com Evaldo e nega a história de ter sido ele jogado em uma lata de lixo pela mãe. Segundo ele, Evaldo era fruto de um relacionamento extraconjugal de Antônio Braga (pai) e, diante da não aceitação da criança por parte da mulher, Evaldo teria sido entregue pelo pai a Noêmia Braga – que teria passado a criá-lo. Ainda segundo ele, mesmo tendo dado seu sobrenome a Evaldo, teria sido ela a responsável por entregar Evaldo ao antigo Serviço de Assistência ao Menor (SAM).

Fato é que após ter feito uma postagem nas redes sociais com curiosidades sobre a vida deste cantor, o alcance e sucesso foram tão grandes que consegui entrar em contato com familiares do músico que ainda vivem em Campos e que conversaram com exclusividade com a coluna contando a verdadeira história familiar de Evaldo Braga, aquela que esteve por todos esses anos escondida por detrás dos holofotes.

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Jorge Luís Braga, de 69 anos, é primo do cantor. Sua mãe, falecida em 2018, Mariana Braga, era irmã da mãe de Evaldo, que tinha por nome Benedita Braga. Evaldo morava inicialmente com a mãe em casa situada à rua do Gás, em companhia também de um irmão – que teria morrido novo. Não se sabe o motivo, mas segundo a família, Evaldo foi entregue como interno à Escola Jesus Cristo, aqui em Campos e, tempos depois, ao antigo Serviço de Assistência ao Menor (SAM). Jorge conta que a mãe de Evaldo morreu após acidente doméstico com uma lamparina que a vitimou por queimadura. A essa altura, ela teria problemas com álcool e morava sozinha. 

Única herdeira do cantor, Mariana Braga foi ao Rio por uma vez encontrá-lo após ter visto o cantor se apresentando no programa do Chacrinha. No encontro, teriam conversado sobre a mãe do cantor, mas a família afirma que no período do sucesso, Evaldo Braga não chegou a visitar Campos, embora fizesse planos de estar com a família em breve. Mariana Braga herdou os direitos autorais do cantor, que não deixou bens materiais outros. Segundo relato dos familiares, nenhum dos dez herdeiros dela, sete à época de seu falecimento, recebeu ou recebe qualquer valor referente a direitos autorais das musicas do cantor.

Evaldo se torna O ídolo negro do Brasil

A trajetória de Evaldo Braga se cruza a de milhares de crianças pobres e abandonadas que vítimas do desamparo, acabaram entregues a instituições como o SAM – Serviço de Assistência ao Menor, antiga FUNABEM / FEBEM.  Foi lá que Evaldo Braga compartilhou a juventude com o jogador de futebol Dario, o Dadá Maravilha, também presente no documentário.

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No SAM, Evaldo Braga se especializou em ser cozinheiro, mas, apesar de já dominar o ofício, preferiu trabalhar como engraxate na calçada da antiga e famosa Rádio Guanabara. Sonhando com a carreira artística, queria estar mais perto do meio e de pessoas influentes que pudessem ajudá-lo a alcançar o sucesso. Foi nesse período que se tornou divulgador de Nilton César e de Lindomar Castilho, conseguindo com isso acesso às rádios e pessoas do meio artístico. Por volta do ano de 1969, teria conhecido o produtor Osmar Navarro, responsável pela gravação do primeiro compacto de Evaldo, “Só Quero”, na gravadora Polydor. No ano de 1971, o compacto já era um dos mais vendidos no Brasil, chegando a vender 150 mil cópias. Contratado pela Phonogram em princípios dos anos 70 para ser concorrente de Agnaldo Timóteo da rival Odeon, lançou seu primeiro disco, chamado O Ídolo Negro, em 1972 e, logo no ano seguinte, o Volume II. Este continha a música “Sorria, Sorria”, talvez a de maior sucesso na carreira do cantor.

Infelizmente, aos 27 anos, em 31 de janeiro de 1973, apenas pouco depois de ter sua carreira de cantor estreada, voltando de dois show em Belo Horizonte e a caminho – mais uma vez naquele ano – do programa do Chacrinha, onde seria homenageado com Disco de Ouro por ter vendido mais de 100 mil cópias do Volume II de “O Ídolo Negro”, Evaldo foi vítima de um acidente fatal na antiga BR-3, atual BR-040, na altura de Alberto Torres, distrito da cidade de Areal, próximo a Três Rios. O carro em que estavam ele, o empresário Paulo Cesar Santoro e o motorista Harley Lins, um Volkswagem Variant TL, chocou-se numa ultrapassagem com uma carreta, vitimando todos os ocupantes do veículo. Seu enterro foi acompanhado por uma multidão que tomou o cemitério São João Batista no Rio de Janeiro. Seu túmulo até hoje é um dos mais visitados do local em dia de Finados.

Não sei vocês, mas a história de Evaldo Braga me era completamente desconhecida. Não fosse a sugestão de um amigo, continuaria sem conhecer a história desse campista que fez tanto sucesso, mas que teve uma vida tão curta e marcada por momentos tão difíceis. Em 2011 o pesquisador cultural e grande conhecedor da música popular, Wellington Cordeiro, organizou uma exposição sobre a vida do cantor e compositor no SESC – Campos. Depois disso, não soube de mais nenhuma iniciativa no sentido de revelar ou de enaltecer o nome desse ilustre campista. Acho uma lástima que a própria cidade não se lembre dele como ele merece, inclusive homenageando-o com nome de rua, de praça ou de projeto.

Mas não somente aqui parece ter sido o nome de Evaldo apagado da história. Na Música Popular Brasileira também parecem ter se esquecido da presença, embora meteórica, absolutamente marcante do cantor e compositor.

Fonte: Rafaela Machado

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