Os campos dos Goitacá: a complexidade da ocupação indígena dos Campos dos Goytacazes.

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Historiadora e Diretora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho (APMWPC), atualmente faz Doutorado em História Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). É também mestre em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Possui experiência na área da História do Brasil Colonial e História Moderna, com ênfase no estudo dos séculos XVII e XVIII. Atua também na área da Paleografia e no Ensino de História Regional. É autora dos livros "Benta Pereira em documentos: testamento e inventários", "Notas Sobre a Fundação do Município de Campos dos Goytacazes", "Ex-presidentes da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes: império 1822-1889", entre outros. Tem desenvolvido suas pesquisas tendo como foco a história de Campos e região, em especial durante os períodos da Colônia e Império.

Rafaela Machado

Os campos dos Goitacá: a complexidade da ocupação indígena dos Campos dos Goytacazes.

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20/04/2021 às 14h25

divulgação
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Nossos campos são oficialmente atribuídos aos Goitacá, também chamados de
Uitacá, etnia indígena conhecida pelos historiadores e descrita por cronistas e religiosos
como bravios, valentes capazes de matar tubarões com suas lanças em um golpe certeiro
e depois usar seus dentes como troféu da grande caça. Visão muitas vezes estereotipada
e descontextualizada da realidade indígena, carregada de preconceitos, posto que
analisada a partir do ponto de vista do colonizador. Em verdade, uma das maiores
dificuldades que se impõe aos que estudam os Goitacá, deve-se ao desconhecimento da
língua, sem que esta tenha sido catalogada antes de seu desaparecimento ou
incorporação - fator importante para a identificação destas comunidades e associação a
um tronco linguístico. Apesar disso, é possível afirmar que os Goitacá pertenciam ao
grande tronco linguístico Macro-Jê e, ao que indicam os estudiosos, integrantes da
família linguística Puri-Coroado - compreendendo aí as línguas Puri, Coroado, Coropó,
e, possivelmente, Goitacá e Guarulho.
Há muitas e diferentes versões para o significado da palavra Goitacá, as mais
conhecidas são: “corredores da mata”, “corredores”, “nadadores”, ou ainda
“caranguejo grande que come ou mata gente”. É preciso que se diga que o próprio
termo Goitacá é palavra Tupi para indicar a característica de “grandes corredores” desse
grupo. No entanto, é importante destacar que os Goitacá não formavam uma única tribo
ou um único grupo. Segundo o francês André Thevet, na obra “Singularidades da
França Antártica”, os Goitacá dividiam-se em quatro diferentes grupos inimigos entre
si -, referindo-se aos Goitaca-Guaçu, Goitaca-Mopi e Goitaca-Jacoritó, e Goitacá-
Mirim, revelando, portanto, o caráter complexo e multifacetado do que chamamos por
Goytacá. Habitavam o litoral desde Cabo Frio até as serras do Espírito Santo, depois
compelidos pelos colonizadores até as serras mineiras.
Há que se pensar ainda que boa parte das informações que até nós chegaram
sobre os Goitacá foram fornecidas, muitas das vezes, pelo Tupi, seus inimigos, e que
estabeleceram maiores e mais frequentes contatos com os europeus. Seguir com
descrições segundo as quais os Goitacá eram identificados como grandes nadadores que
a braço tomavam tubarões, munidos apenas de pedaços de paus, classificados ainda

como os mais bárbaros de que se tinha notícia, inclusive “comedores de carne humana”,
é reduzir toda especificidade dos Goitacá a narrativas de religiosos, como os jesuítas,
cronistas e viajantes. Podemos observar em uma série de análises e considerações que
vão desde publicações em redes sociais, como também em estudos variados, a
permanência de uma visão extremamente simplista e ultrapassada, e que apenas
perpetua relatos produzidos por outros – um outro com o olhar do europeu ou do branco
e que desconsiderou os próprios sujeitos de quem falavam, bastando, para isso, ver o
vídeo publicado pelo escritor e pesquisador Eduardo Bueno em seu canal no YouTube.
É possível afirmar, segundo apontam os estudos arqueológicos, que os primeiros
Goitacá chegaram ao litoral do Rio de Janeiro por volta do ano 2000 a.C, ocupando
regiões que compreendiam o litoral de Cabo Frio, a Serra Fluminense e o sul do Espírito
Santo. Eram pescadores, caçadores, agricultores e ceramistas, vivendo,
preferencialmente, em regiões de lagos e rios, sendo, por isso, descritos recorrentemente
como grandes nadadores. Além disso, os registros arqueológicos apontam que os
Goitacá praticavam a antropofagia, entendo-a aqui como uma prática ritualística que se
relacionava à aquisição das características do outro, do inimigo – tapouyest, em língua
jê, isto é, “gente de comer”-. Acostumados às lides da guerra, os Goitacá tinham o outro
como inimigo, incluindo-se aí crianças não pertencentes à tribo. É novamente André
Thevet quem sinaliza para a presença desde muito cedo, entre as crianças, de
treinamento para a guerra, em especial, o treinamento com flechas.
É bom lembrar que os Goitacá logo em princípios do século XVII, passaram por
grandes processos de aldeamentos na Redução de São Pedro da Aldeia, em 1615, como
também em 1623 na Fazenda de Campos Novos, além de expedições de extermínio e
dizimação anteriores comandadas pelo governo do Rio de Janeiro. Apesar disso, a
principal forma de dizimação dos Goytacá se deu através da proliferação de doenças
para as quais não tinham eles imunidade, como sarampo, cólera e gripe. Prática comum
entre os colonizadores-invasores, foi a propagação dessas doenças por entre os nativos
ao deixarem pelos caminhos e águas roupas contaminadas.
Portanto, a história sobre os indígenas que ocupavam a região dos Campos dos
Goytacazes precisa ser problematizada, entendendo-se os contatos de longa duração,
antes e após a presença do colonizador, sejam eles com outros grupos indígenas
autônomos ou já inseridos na dinâmica colonial, ou ainda com outros grupos. Os

Goytacá, assim como outros de nossa região, representaram muitas vezes não apenas a
resistência à invasão, à escravização e à opressão a que foram obrigados em suas
próprias terras, mas a manutenção de suas características próprias e mais singulares.

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Gostou e quer saber mais? Na próxima semana falaremos sobre outros grupos
indígenas que habitavam a nossa região, como os Puri, Coroado e Guarulho.

Fonte: Ururau

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