Palácio da Cultura

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Aqui tem história

Historiadora e Diretora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho (APMWPC), atualmente faz Doutorado em História Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). É também mestre em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Possui experiência na área da História do Brasil Colonial e História Moderna, com ênfase no estudo dos séculos XVII e XVIII. Atua também na área da Paleografia e no Ensino de História Regional. É autora dos livros "Benta Pereira em documentos: testamento e inventários", "Notas Sobre a Fundação do Município de Campos dos Goytacazes", "Ex-presidentes da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes: império 1822-1889", entre outros. Tem desenvolvido suas pesquisas tendo como foco a história de Campos e região, em especial durante os períodos da Colônia e Império.

Rafaela Machado

Palácio da Cultura

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30/08/2020 às 08h09

Reprodução
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Construído em 1973 para ser um marco da arquitetura campista, o Palácio da Cultura é ainda hoje um importante monumento que guarda relações afetivas com muitos campistas. Afinal, quem já não passou algumas horas na biblioteca daquele espaço entre leituras e pesquisas escolares? É sobre a história do Palácio da Cultura que vamos apresentar hoje.
 
 
Localizado na Praça da Bandeira com uma área total de mais de 3600 metros quadrados e seguindo as inspirações do concretismo, vertente do modernismo, a inauguração do Palácio da Cultura aconteceu em 1973, na gestão do prefeito Zezé Barbosa. No entanto, a idealização de um lugar que pudesse ser considerado o palácio das tradições artísticas e culturais de Campos, tomou forma no início da década de 70 no governo do prefeito Rockefeller de Lima, encontrando reações inesperadas junto ao público.

Considerada desde finais do século XIX e início do século XX a “capital do intelectualismo fluminense”, Campos recebeu o Palácio da Cultura para ser um monumento arquitetônico que fosse palco privilegiado da cultura. À época de sua construção, o projeto sofreu várias críticas, principalmente, no que se refere à distância do local – hoje área privilegiada de Campos, mas antes distante e isolada, perto apenas do Hospital da Santa Casa de Misericórdia. A proximidade com a Santa Casa foi, aliás, outro motivo de grandes críticas, já que os opositores do projeto, dentre eles o jornalista Oswaldo Lima – que posteriormente teve seu nome registrado no próprio edifício -, alegavam que a construção destruiria a área verde do local, prejudicando a recuperação dos pacientes.

?Projetado pelo renomado arquiteto Francisco de Assis Leal, em conjunto com o engenheiro Antonio Roberto de Araujo Viana, para seguir às mais modernas tendências da época, o local recebeu ainda projeção paisagística para o jardim de Roberto Burle Marx. Arquiteto de renome nacional, Francisco de Assis Leal nasceu no Rio de Janeiro, mas fez ampla carreira em Campos dos Goytacazes, aqui falecendo em 2012. O paisagista Burle Marx, nascido em São Paulo em 1909, e falecido no Rio de Janeiro em 1994, foi um dos mais famosos e conhecidos paisagistas do Brasil e de grande presença internacional. Inclusive, foi também percursor na formação e consolidação da Arquitetura Moderna Brasileira. Entende-se, portanto, que a construção do Palácio da Cultura foi um marco da arquitetura fluminense na década de 70, alcançando projeção em editoriais de várias partes do Brasil. De tão relevante, a construção foi considerada pela Associação Brasileira de Engenharia como a obra de maior importância no cenário brasileiro naquele ano de 1973. A inauguração do espaço contou com a presença do governador do Rio de Janeiro e exposição do ainda jovem campista e artista plástico Ivald Granato.

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É interessante ressaltar também que embora a obra tenha sido projetada pelo prefeito Rockefeller de Lima, a inauguração apenas ocorreu na gestão do seu adversário político, o conhecido Zezé Barbosa. Muito por isso é que o local parece não ter sido promovido pelo então prefeito de acordo com o seu real potencial, o que de fato só veio a acontecer a partir de 1977, na gestão do prefeito Raul Linhares. Nesse quesito, é bom também lembrar que diante da falta de investimentos em ações culturais a serem realizadas no local, a população vinha guardando certo distanciamento do Palácio da Cultura devido à sua grande proporção e imponência, bem como pelos grandes vidros utilizados na construção – o que para muitos causava certa sensação de insegurança.

Diante disso, é possível afirmar que foi o governo de Raul Linhares o responsável pela popularização do espaço ao promover ali ações não só de valorização do local, como de aproximação do público. Para isso, Raul Linhares promoveu o então Departamento de Cultura à Fundação Cultural, recebendo esta o nome do jornalista Oswaldo Lima, e colocando na presidência daquele o órgão o médico e ávido defensor da cultura local, Wilson Paes. Nesse período, a contribuição do poeta e escritor José Candido de Carvalho foi também essencial à democratização e popularização daquele espaço. À frente da Fundação Nacional de Artes, José Cândido promoveu uma série de eventos artístico-culturais na já então Fundação Cultural. Desde então, o Palácio da Cultura passou a ser apropriado não só pelos usuários – pesquisadores habituais, como também por várias instituições locais voltadas às mais variadas expressões artísticas.
Ainda vivo na memória de muitos campistas, o poeta Antônio Roberto Fernandes foi o idealizador dos “cafés literários”, de reconhecido valor para o fomento das artes e da cultura na região e ainda hoje recorrentemente realizado por várias instituições. Além de abrigar a Fundação Cultural, o espaço passou a servir à Biblioteca Nilo Peçanha - que inclusive foi uma das justificativas utilizadas para a construção do Palácio, já que o lugar antes dedicado a ela no centro da cidade já não mais comportava o seu vasto acervo. Originalmente, o Palácio da Cultura possuía ainda um belíssimo teatro – que recebeu o nome do poeta natural de Conceição de Macabu, Amaro Prata Tavares, além de salão de artes, jardim de inverno e o famoso Pantheon dos Heróis Campistas. Nos primeiros anos, todo o complexo formado pelo espaço já abrigou também o museu e arquivo locais, embora seja importante ressaltar que o museu de fato tenha sido inaugurado no Solar do Visconde de Araruama, no centro da cidade, retornando algum tempo depois para o Palácio da Cultura e depois então para o Museu Olavo Cardoso, hoje fechado ao público e com graves problemas estruturais. Possuía também em seu projeto pioneiro, espaços dedicados à pinacoteca e mapoteca e seção de obras raras. Durante muitos anos, foi também utilizado pela Secretaria de Educação da cidade, recebendo, por isso, grandes críticas por conta da colocação de “puxadinhos” no espaço que descaracterizaram a obra.
 
O Pantheon dos Heróis Campistas
?Muitos campistas sabem também que o Palácio da Cultura guarda ainda o Pantheon dos Heróis Campistas. Neste local, estão depositados os restos mortais do “Tigre da Abolição”, José do Patrocínio - personagem importantíssimo nas lutas pelo fim da escravidão no Brasil, e de sua esposa Maria Henriqueta do Patrocínio. Além destes, lá estão também os restos mortais do ilustre abolicionista campista Luiz Carlos de Lacerda, idealizador do jornal 25 de Março, e também do prefeito João Barcellos Martins.
?Na internet é possível verificar uma grande quantidade de informações que não são verdadeiras a respeito dos que teriam seus restos mortais depositados no Pantheon Campista. Nilo Peçanha, por exemplo, campista e presidente da República, diferente do que comumente se lê, têm seus restos mortais depositados no cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, assim como o ilustre campista Almirante Luís Felipe de Saldanha da Gama. Diferente do que é destacado por muitos sites e blogs locais, os restos mortais de Saldanha da Gama também não estão no Pantheon dos Heróis Campistas. Um dos mais ilustres membros da Marinha Brasileira, o campista Saldanha da Gama, nascido no dia 07 de abril de 1846, numa vivenda situada à Beira-Rio, antiga Pedro II, atual Avenida XV de Novembro, em local onde hoje está instalado o Fórum Municipal, tomou parte nas lutas contra o presidente Floriano Peixoto, na Revolução da Armada no Rio de Janeiro. Uma vez desmantelado o movimento, Saldanha da Gama e seus companheiros passaram a lutar na Revolução Federalista no sul do país. Em Campo Osório, aos 49 anos, encontrou a morte heroicamente em campo de batalha no dia 24 de junho do ano de 1895, sendo só muito mais tarde encontrado o seu cadáver. Seus restos mortais foram traslados para o cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, em 1908, onde desde 1946 encontram-se em monumento erigido pelo Clube Naval.
?Benta Pereira e Mariana Barreto, consideradas heroínas campistas e duas das principais lideranças do Levante de 1748 contra o donatário da capitania da Paraíba do Sul, o visconde de Asseca, também não estão depositadas no Pantheon Campista. Contrário ao que se constata através do consenso local, Benta Pereira – segundo o que determinou em seu testamento -, está depositada aos pés do altar do Espírito Santo no Solar do Colégio, e Mariana Barreto tem seus restos mortais depositados na Igreja de São Sebastião.
?Portanto, é preciso ter cuidado com o que se lê a respeito do Palácio da Cultura e do Pantheon dos Heróis Campistas. As muitas informações desencontradas e incorretas, levam o leitor a pensar que lá estão depositados os restos mortais de ilustres campistas que na verdade se encontram em outros locais – cemitérios ou igrejas. Como vimos, assim é o caso de figuras como Nilo Peçanha, Saldanha da Gama, Benta Pereira e Mariana Barreto. Portanto, no Pantheon dos Heróis Campista jazem os restos mortais do Tigre da Abolição - José do Patrocínio, e sua esposa Maria Henriqueta do Patrocínio, além do abolicionista Carlos de Lacerda e do prefeito Barcellos Martins.
 
Obras e Reabertura
Desde 2014, o Palácio da Cultura Jornalista Oswaldo Lima passa por obras de reformas e, por isso, está de portas fechadas ao público desde então. Espaço que sempre abrigou a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima e a Biblioteca Nilo Peçanha, o Palácio da Cultura deve ser aberto novamente ao público ainda neste ano, já que as obras estão em fase final de realização. A revitalização do espaço foi possível graças à medida compensatória determinada pelo Ministério Público junto aos proprietários da chamada “casa do Chacrinha”. A demolição em sua integralidade pelos proprietários desta edificação, levantou muitos protestos à época, já que se tratava de um bem tombado pelo COPPAM, em pleno centro da cidade e que foi destruído por interesses alheios à proteção patrimonial.
Vale ressaltar que a reabertura do próprio Palácio da Cultura tem sido também motivo de muitos protestos por parte dos vários segmentos do setor artístico-cultural de Campos. As críticas encontram lugar no compartilhamento do espaço com o Centro Municipal de Inovação, ligado à Superintendência de Ciência, Tecnologia e Inovação e ao fomento do empreendedorismo. Apesar das várias críticas ao novo projeto, é bom lembrar que o Palácio da Cultura já vinha passando por seguidas descaracterizações, principalmente após a instalação da Secretaria de Educação, ou de parte dela. De tal forma, independente do compartilhamento do espaço, item importantíssimo a estar na pauta é a manutenção da originalidade do local, ou sua adequação sem que se gerem descaracterizações ao mesmo. Por fim, que não nos esqueçamos que o Palácio é da Cultura, entendendo, no entanto, tudo que esta mesma engloba.
 
*Curiosidades:
* Diante da imponência da obra que construiu o local utilizando-se de concreto e vidro, muitos campistas durante certo período de tempo guardaram grande distanciamento do local, acreditando não ser seguro utilizar do espaço. O medo a respeito da segurança do espaço, somado à ausência de políticas culturais a serem adotadas no local, fizeram com que apenas no governo Raul Linhares o espaço passasse a ser popularizado.


* Para isso, Raul Linhares não apenas criou a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, como também ao colocar o médico Wilson Paes à frente do projeto, soube adotar medidas que visavam a real ocupação do espaço. Assim, a partir de sua gestão é que a Biblioteca Nilo Peçanha foi então finalmente transferida para o Palácio da Cultura.


* O que poucos sabem, ou se lembram, é que o Palácio da Cultura já com Raul Linhares e Wilson Paes, serviu de base para o desenvolvimento do chamado “Projeto Rondon”, cujo objetivo era levar médicos e professores, vindos principalmente da comunidade universitária, à região amazônica, englobando estados como Rondônia, Mato Grosso e Amazônia. Criado em 1967 e de fato implantado pelo Governo Federal no ano seguinte, o projeto foi batizado em homenagem ao sertanista Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon e, apesar de extinto em 1989, foi reativado em 2005 como ação interministerial do Governo Federal. Em Campos, especificamente no Palácio da Cultura, os agentes eram treinados e daqui enviados através da Força Aérea Brasileira para os trabalhos na região amazônica.
*Campos passou a ser considera a “capital do intelectualismo fluminense” por abrigar, entre outras, instituições como a Associação de Imprensa Campista, a Academia Campista de Letras, bem como a Academia Pedralva Letras e Artes, o Centro Cultural de Campos – Orfeão Santa Cecília, a FUNDENOR – Fundação Norte-Fluminense de Desenvolvimento Regional, além de outros como o Clube de Poesia e o Instituto Campista de Literatura.

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* O Palácio da Cultura, durante o governo de Alexandre Mocaiber (2004-2008), transferiu para a chamada “Pracinha do Canhão”, na Avenida Alberto Torres, a cena escultórica em homenagem à Abolição criada pelo artista paraibano Joás Pereira dos Passos. O conjunto de estátuas que formava a cena havia sido instalado no ano de 2003, a pedido de Antonio Roberto Fernandes, Jorge Renato Pereira Pinto e Vilmar Rangel, em frente ao Palácio da Cultura - justamente para estar próximo ao Pantheon e dos chamados “heróis campistas”. Ainda hoje, há grande descontentamento local com a localização das esculturas e com a descaracterização da cena original, uma vez que esta foi projetada para estar próxima ao Pantheon. Segundo informações do presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes, Genilson Soares, existe a intenção de que uma vez que o Palácio da Cultura seja reinaugurado, o conjunto da obra possa retornar ao seu local original.


* O Pantheon dos Heróis Campistas guarda ainda quatro espaços para a transladação e depósito dos restos mortais de outros campistas. Resta a pergunta: quais heróis ou ilustres campistas você gostaria de ver lá?
 
*Agradeço as informações a mim passadas pela historiadora Sylvia Paes, filha do Doutor Wilson Paes, e grande pesquisadora e conhecedora da história campista. Agradeço também mais uma vez, a Genilson Soares, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes e grande amigo e apoiador desta coluna.

Fonte: Rafaela Machado

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