Mitos, Maternidade e Desejo para um feliz dia das mães

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Sociologia na Prática

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Renata Souza

Mitos, Maternidade e Desejo para um feliz dia das mães

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07/05/2021 às 13h28 08/05/2021 às 12h43

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No que pese na contemporaneidade a noção de mito ter assumido uma conotação moral - sendo associada à ideia de algo nocivo, prejudicial ou mesmo falsa - essa categoria tem uma importância fundamental dentro das ciências sociais e humanas para a compreensão de determinados fenômenos.  A filósofa Marilena Chauí define o mito em termos de uma narrativa sobre a origem, uma explicação – tomada como verdadeira – acerca da origem daquilo que é considerado importante para uma sociedade. O mito, nesse sentido, por meio de uma contação, de uma narração, explica o porquê as coisas são do jeito que são, sendo a explicação considerada verdadeira para seu povo.

A antropologia, por sua vez, destaca a dimensão simbólica do mito, sua significação, sua lógica, sua estrutura. Para Claude Lévi-Strauss, a significação dos mitos fundamenta a organização lógica e os sentidos da própria estrutura social, o que o antropólogo observou em suas etnografias entre culturas indígenas.

Mesmo considerando as perspectivas filosófico-antropológicas do mito, é importante destacar como eles são apropriados, historicamente, pelas estruturas de poder. Desnudar como as narrativas e os discursos que compõem os mitos modernos são politizados, ou seja, de que forma eles entram na composição das relações de poder que participam da dinâmica da sociedade. Para além dos mitos gregos, dos mitos da cultura indígena, temos os mitos que modernamente se inscrevem no jogo de forças das relações de poder. Para ficar claro gostaria de citar apenas três deles: o mito da democracia racial, o mito da beleza e o mito do amor materno.

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Nos três casos, temos um discurso enunciado como verdadeiro e que serve como aparato, como estratégia de subjugação e de opressão para fundamentar uma relação de forças desigual. No primeiro caso, o discurso de que o Brasil é uma sociedade democrática do ponto de vista racial e que o português, o negro e o indígena aqui conviveram pacífica e harmoniosamente formando a base da nação, mito herdado dos trabalhos de Gilberto Freyre. Aqui cabe a pergunta: a quem serve o discurso de que o Brasil é uma nação na qual não existe racismo? No segundo caso, o mito da beleza enuncia como verdadeiro que a “beleza” é uma qualidade tangível, objetiva e universal e que cabem as mulheres o dever de encarná-la e aos homens o dever de possuí-la, como bem esclarece a autora da terceira onda feminista Naomi Wolf em trabalho dos anos 1990. De novo a pergunta: a quem serve esse discurso internalizado por milhares de subjetividades e adotado após a liberação das mulheres da mística feminina do lar e de sua inserção no mundo do trabalho, após a liberação sexual das mulheres?

No mito do amor materno, como mostra Elisabeth Badinter em obra de 1980, a maternidade é posta como destino natural das mulheres, algo determinado pela natureza feminina. Já seu sentimento com relação a sua prole é tido como inato, instintivo e inequívoco.  No mito do amor materno, a mulher é revestida de sacralidade e a partir do nascimento de seu filho ela se negará para sempre como sujeito, devendo a ele devotar-se, pois “ser mãe é padecer no paraíso”. Mais uma vez: a quem serve o projeto da mãe devota, dessexualizada, obediente e destituída de paixões? A quem serve o projeto de domesticação da mulher, fazendo-a acreditar que não se sentirá completa sem gerar? “Plena”, “em estado de plenitude”, coroas de flores na cabeça e cenários bucólicos são imagens que comumente acompanham gestantes. Vou me demorar um pouco por aqui.

Simone de Beauvoir e Elisabeth Badinter dedicaram-se, dentre outras coisas, a mostrar como o lugar da maternidade na vida feminina é algo construído social e culturalmente e não algo intuitivo, dado pela natureza. Igualmente, as imagens do tão aludido amor de mãe e a abdicação como corporificação do mito do amor materno, que envolvem doses cavalares de abnegação e sacrifício, fazem parte de um projeto político de domesticação da mulher.  Sarah Hidy mostrou por meio de levantamento antropológico que não há um instinto materno nas fêmeas homo sapiens por não haver qualquer padrão de comportamento fixo dispensado pela mulher após o parto como ocorre com outros mamíferos. A vontade de maternar é inculcada na menina desde a primeira infância até que essa vontade assuma contornos do desejo mais autêntico da mulher.

Na literatura, o romance Fique Comigo da nigeriana Ayòbámi Adébáyò conta a incrível história de uma mulher em uma sociedade poligâmica que após alguns anos de união não consegue engravidar. Apesar dela e o marido terem feito um acordo de que não aceitariam uma segunda esposa, ela passa a se ver pressionada pela família em ter um filho e sabe que só conseguindo engravidar conseguiria salvar seu casamento. É exatamente o que faz, mas a um custo muito alto. O best-seller traz a reflexão sobre o que as mulheres estão dispostas a fazer para atender aos papeis socialmente impostos.

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Na televisão, a novela Amor de Mãe da rede globo (2019-2021) é icônica ao contar a história de Lurdes, Thelma e Vitória, mulheres que exercem a maternidade cada uma a seu modo, embora o fio do amor pleno e “autêntico” as una. Lurdes, a protagonista, encarna a mulher abnegada que vive em função de seu nobre sentimento pelos filhos. Abre mão da própria vida em sua saga para encontrar um deles, sequestrado ainda na infância. Termina sequestrada e quase morta, mas feliz com o amor da prole.

Nas redes sociais, nos anúncios dos dias das mães e nas conversas do dia a dia não é difícil observar as imagens e os estereótipos sobre o maternar vigentes em nossa sociedade. “Tenho orgulho da mãe que você se tornou!” é uma frase exemplar – eu já escutei algumas vezes - dedicada as mulheres que abriram mão de suas vidas emocionais, profissionais e pessoais em função do maternar: o último degrau na carreira de fêmea. A realidade do home-office inaugurada pela pandemia do covid-19 na jornada das mães de classe média inseridas no mercado de trabalho faz com que essas mulheres entrem no looping impotência-exaustão-fracasso. “E agora? Quem poderá nos defender?” As creches e escolas não funcionam e não seriam os homens, igualmente em home-office nas situações referidas, a assumir o caos desse tipo de rotina.

No entanto, o controle do mito não é exercido apenas sobre a vontade de maternar, mas também há um controle estrito que modela e reprime as mulheres para comportá-las no arquétipo da “boa mãe”. A síndrome da boa mãe é composta por um léxico e vocabulário próprios: criação neurocompatível; CNV, comunicação não violenta; BLW, Baby-Led Weaning; parentalidade positiva, higiene do sono, aleitamento materno exclusivo, desmame gentil; parto humanizado, e assim por diante. O que isso significa? Simples: há um controle estrito do comportamento das mulheres sobre o maternar com a utilização de artifícios às vezes científicos, às vezes pseudocientíficos, que têm a função de regular as práticas, principalmente no que diz respeito às mulheres de classe média. Isso não significa dizer que essas práticas não são importantes ou não tenham relevância, mas significa destacar como elas são acionadas para padronizar, domesticar e controlar o comportamento das mulheres. Esse é um projeto político que mais uma vez age sobre as mulheres, mulheres que poderiam estar se dedicando a milhões de projetos, mulheres que poderiam estar cuidando, por exemplo, de sua carreira e de sua vida financeira. Se há um distanciamento dos comportamentos considerados requisitos para performar a “boa-mãe” entra em ação um componente psicológico de alta potência e muito perigoso: a culpa materna.

Se é verdade que a partir da modernidade há uma reconfiguração do desejo feminino; se é verdade que a mulher enquanto sujeito desejante se abre a novas possibilidades que não têm a ver necessariamente e/ou somente com o desejo de ser mãe; se é sabido que esse não é um desejo universal, mas que tem a ver com as condições econômicas e sociais, com a herança genética e psicológica, com a história e as vivências de cada mulher; se o desejo vai em várias direções; se o lugar da maternidade na vida feminina perdeu seu pódio exclusivo por que considerá-la uma questão de relevância e que mereça atenção por parte de nós mulheres?

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A maternidade pode ser um desejo autêntico para milhares de mulheres. O desejo, definido pela psicanálise em termos de uma falta nunca preenchida, pode ser realizado por meio da maternidade. É legítimo que algumas mulheres escolham a maternidade como a grande e principal motivação de suas vidas. É legítimo desde que essa seja uma opção, uma dentre outras escolhas feitas de forma consciente e livre. O que está em xeque aqui é se esse desejo é um autêntico desejo desse ser desejante que é a mulher –as mulheres - ou se a maternidade foi incrustrada em sua subjetividade como objeto de desejo e como forma de sabotamento. Cumpre saber se a maternidade representa, em cada caso, um anseio alienado ou uma adesão voluntária a tais representações da mulher. Tudo irá depender da sua história, de cada história e da História.

 

 

Camila Borges Barreto é cientista social, mestra em Educação Profissional e Tecnológica e mãe da Helena de 2 anos.

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Fonte: Renata Souza

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