O Brasil mantém uma das maiores tradições cervejeiras do mundo, sendo o segundo maior consumidor global da bebida com mais de 15 bilhões de litros consumidos em 2024. Apesar do volume, o mercado se caracteriza por uma forte concentração nas cervejas do tipo Pilsen, que dominam cerca de 80% das vendas nacionais, com Brahma, Skol e Heineken liderando a preferência dos consumidores.
O domínio das Pilsens no Brasil
O paladar do brasileiro, majoritariamente, se inclinou historicamente para as cervejas claras e leves, favorecendo as Pilsens. Esse predomínio, aliado à praticidade dessas bebidas, influenciou o desaparecimento de estilos mais encorpados e regionais, como as Bocks e Stouts. Cervejas escuras e mais robustas, que pediam uma experiência diferente ao consumidor, foram sucumbindo diante da popularidade dos rótulos mais simples e acessíveis.
Essa preferência não apenas definiu o perfil do mercado, mas também levou as grandes cervejarias a ajustar seus portfólios, concentrando recursos e esforços nas marcas mais vendidas e abandonando aquelas com menor volume e menor apelo comercial.
Marcas emblemáticas que saíram de cena
Algumas cervejas que marcaram épocas, premissas e paladares acabaram sendo descontinuadas, seja pela baixa aceitação do público ou pela estratégia das empresas. Um exemplo notório é a Malt 90, lançada pela Brahma em 1984, idealizada como a cerveja do futuro e com grande investimento publicitário, inclusive sendo a cerveja oficial do primeiro Rock in Rio. Apesar de toda visibilidade, o sabor não agradou e a marca caiu em desuso nos anos 1990, associada até a lendas sobre ressacas severas.
Outro nome bastante lembrado é a Kaiser Bock, uma das pioneiras do estilo Bock no Brasil. Fabricada com produção sazonal até o início da década de 2010, foi interrompida essencialmente por questões de custo-benefício, já que a produção de um rótulo de nicho, com menor volume e sazonalidade, não era mais viável num mercado altamente competitivo.
A Antarctica Pilsen Extra Cristal entrou como inovação ao apresentar uma garrafa transparente, reforçando uma imagem de pureza, mas acabou descontinuada por apresentar problemas sensoriais relacionados à exposição à luz, afetando o sabor e a aceitação, e foi absorvida pelo portfólio tradicional da Antarctica Cristal.
Além dessas, cervejas como a Antarctica München Extra e a Brahma München, ambas estilos Munich Dunkel, desapareceram após as fusões da Ambev, que reduziram seus portfólios para otimizar custos e eficiência. Essas cervejas escuras, apreciadas por públicos específicos, foram sacrificadas para não canibalizar vendas dentro do mesmo grupo.
A Carlsberg, tradicional cerveja dinamarquesa produzida em licença no Brasil, não conseguiu se manter diante da forte concorrência e do custo dos royalties e encerrou sua produção nacional, sendo atualmente vendida apenas como importada.
Marcas regionais de pequeno porte, como a Krill, da Cervejaria Krill em São Paulo, chegaram a conquistar consumidores com preços mais acessíveis, mas enfrentaram dificuldades severas pela disputa do espaço dos pontos de venda controlados pelas grandes cervejarias, acabando extintas.
Outra relíquia do passado é a Inglesinha Stout, produzida entre 1940 e 1990 em Mogi Mirim, conhecida pelo sabor torrado típico das Stouts, mas perdida após o fechamento da fábrica e a ascensão das Pilsens.
A Cerveja Pérola, orgulho da Serra Gaúcha, também deixou de ser produzida em escala nacional após décadas de sucesso, reflexo do estilo de mercado cada vez mais dominado por grandes grupos e estilos uniformizados.
Mudanças do mercado e desafios das cervejas de nicho
As fusões entre grandes sistemas cervejeiros, como Ambev e Heineken, desencadearam cortes significativos nos portfólios nacionais, com a priorização de best-sellers e a eliminação de rótulos considerados menos lucrativos ou difíceis de escalar. Essa dinâmica é um reflexo direto de um mercado saturado e competitivo, onde a racionalização se fez necessária.
Ao mesmo tempo, o Brasil viu um crescimento expressivo no número de cervejarias artesanais, chegando a quase 2 mil em atividade com mais de 55 mil marcas registradas. Essa diversificação contrasta com os cortes realizados nas linhas das grandes empresas, demonstrando uma fragmentação do mercado entre produção artesanal e industrial.
Ainda assim, a predominância das Pilsens permanece um fator limitante para a diversidade, fazendo com que estilos alternativos enfrentem barreiras ainda hoje para se manter, principalmente quando a escala de produção e distribuição não acompanha o investimento das gigantes.
Em resumo, o desaparecimento de marcas que deixaram saudades no Brasil é parte da evolução natural do mercado, onde preferências do público, desafios econômicos e estratégias corporativas convergem para moldar o cenário atual, menos plural, porém com espaço crescente para a inovação artesanal.
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