Antonio Ilario Ferreira, conhecido como Rabicó pelos mais velhos e como Coroa pelos mais novos, manda no tráfico de drogas, nos roubos de veículos e nos assaltos na região de São Gonçalo, especialmente na BR-101, uma das áreas mais visadas pela criminalidade.
Rabicó é apontado como um dos principais integrantes do Comando Vermelho no Brasil e teria condenações que somam mais de 27 anos. Segundo as apurações, ele foi preso preventivamente por ordem da 44ª Vara Criminal da Capital, no processo número 0253799-15.2023.8.19.0001.
Na mesma ocasião, também foram decretadas as prisões de outros 20 réus, pela prática de crimes como tráfico de drogas, roubos e outros delitos.
A Sétima Câmara Criminal do Rio de Janeiro revogou a custódia preventiva de Rabicó no habeas corpus número 0024153-05.2017.8.19.0000. O entendimento foi de que, embora ele fosse integrante do Comando Vermelho, teria direito de recorrer em liberdade.
Em 2 de abril de 2019, a Sétima Câmara Criminal deu provimento parcial à apelação de Rabicó e determinou que o mandado de prisão só fosse expedido após o trânsito em julgado da condenação.
Antes disso, em 18 de outubro de 2017, o juiz da causa havia mantido Rabicó preso. A defesa recorreu ao STJ, por meio do habeas corpus número 528.671/RJ. Na ocasião, o relator não acolheu o pedido da defesa. Depois, Rabicó foi ao Supremo Tribunal Federal com o habeas corpus 174965, sob o argumento de que a Sétima Câmara havia condicionado a expedição do mandado de prisão ao trânsito em julgado e de que não houve recurso do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
O relator do habeas corpus no Supremo, ministro Marco Aurélio Mello, deferiu a liminar em 30 de outubro de 2019. Rabicó, então, voltou a ficar livre em São Gonçalo.
Posteriormente, a turma do Supremo não conheceu do habeas corpus, com voto vencido do relator. Mas Rabicó já havia sido colocado em liberdade. E, nesse ponto, a sociedade já havia perdido.
Nos últimos cinco anos, ele nadou de braçadas no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. As quadrilhas que atuam naquela região conseguem tirar o sono de quem pensa em ir ao Rio de carro.
No último dia 28, a ex-esposa de Rabicó foi presa com mais 20 pessoas, todas ligadas ao Complexo do Salgueiro. Segundo as investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro, ela teria movimentado cerca de R$ 500 milhões.
O negócio usado para lavar o dinheiro do tráfico seria o ferro-velho e a reciclagem de lixo.
À noite, começaram a circular nas redes sociais áudios de supostas conversas entre Rabicó e seus prepostos no crime. Em uma delas, ele não demonstrava satisfação com o valor dos veículos roubados na BR-101 e em outros pontos de sua área de atuação. Rabicó pediu que procurassem roubar veículos mais novos, de maior valor agregado.
Em outro áudio, ele supostamente enviava uma mensagem a um eventual concorrente que estaria invadindo sua área. Nesse trecho, Rabicó dá uma lição a esses CEOs de Harvard. Ele demonstra segurança, objetividade e leitura do próprio território.
Não busca confronto direto. Apresenta-se como dono do negócio e lembra que gasta para se manter no local e sustentar o próprio reinado. O cara é desenrolado. Talvez seja por isso que manda em São Gonçalo há mais de 30 anos e nunca precisou pedir voto a ninguém, pelo que se sabe até agora.
Em regra, esse tipo de atividade profissional dura pouco. Rabicó, no entanto, já tem 61 anos.
Nos últimos cinco anos, São Gonçalo elegeu um capitão da Polícia Militar como prefeito. O filho dele, policial civil, também ocupou secretaria no governo de Cláudio Castro, que comandou o Estado do Rio e depois foi declarado inelegível pelo TSE. Mesmo nesse cenário, Rabicó seguiu mandando nos arrastões da BR-101.
A melhor iniciativa popular talvez fosse criar um pedágio para que o pessoal do Norte do Estado e da Região dos Lagos pagasse diretamente a Rabicó. Ficaria mais tranquilo, mais barato e ainda haveria a certeza de que o crime iria proteger quem passa pela BR-101. A Arteris recebe o pedágio, mas quem manda é Rabicó.
Mas por que o Estado do Rio chegou a esse ponto? Só em 2024, o Rio registrou déficit de R$ 2,3 bilhões, mas renunciou, no mesmo ano, a R$ 23 bilhões. Para o próximo ano, há previsão de novo déficit.
O Rio tem 500 vagas de auditores fiscais sem preencher há anos. Na Polícia Militar, são aproximadamente 20 mil vagas abertas. Na Polícia Civil, 5 mil. Também há 12 mil vagas de professores no Estado do Rio, com salário inicial de R$ 2.052,56 por mês.
Mesmo assim, o governo briga para não arrecadar. É inacreditável.
O caso da Refit é apenas um pingo d’água no oceano. A tragédia na Secretaria de Fazenda do Rio é muito maior. Quem manda nas isenções fiscais é a Codin. O presidente é Fábio Picanço, cujo mandato já acabou, mas o desembargador Ricardo Couto não fez a troca, pelo menos até agora.
É Fábio Picanço quem ditava e continua ditando as ordens para a Secretaria de Fazenda. O esquema permanece preservado porque quem define se deve haver isenção fiscal é a Codin.
Sem arrecadação, o Estado não consegue enfrentar o poder de Rabicó e de outros integrantes das organizações criminosas do Rio. Não há fiscal suficiente na Secretaria de Fazenda, nem policial para cumprir mandados de prisão, nem professor para dar aula.
Nos últimos dias, o Rio registrou dois episódios envolvendo a morte de policiais que perderam a vida defendendo a sociedade. O caso mais grave foi a execução do subtenente André Luiz Cardoso Eccard, na comunidade da Covanca, no Rio. Também morreu o investigador e piloto de helicóptero Felipe Marques Monteiro.
Houve ainda o erro das forças de segurança no Complexo do Salgueiro, onde dois moradores perderam a vida. Eram pedreiros, trabalhadores.
O governador em exercício, Ricardo Couto, já adotou providências de ordem material e determinou à Procuradoria do Estado que agilize o pagamento de indenizações às famílias das vítimas. Não resolve tudo, mas mostra que, quando há um governador engajado com o bem comum, o Estado consegue ser menos perverso.
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