A decisão do Ministério da Saúde de não incorporar a vacina contra a herpes zóster ao Sistema Único de Saúde recolocou o debate sobre prioridades orçamentárias no centro da política pública de saúde. O custo estimado da incorporação é de R$ 1,2 bilhão por ano, valor que corresponde a apenas 0,018% do Orçamento da União previsto para 2026, que soma R$ 6,54 trilhões.
Dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento mostram que pelo menos 124 ações governamentais previstas para 2026 possuem custo igual ou superior a R$ 1 bilhão. Entre elas estão despesas administrativas, programas setoriais e reajustes salariais de diferentes Poderes.
O impacto financeiro total da vacinação foi estimado em R$ 5,2 bilhões ao longo de cinco anos. Nesse período, seria possível imunizar cerca de 6,47 milhões de pessoas, com média de 1,5 milhão por ano. O público-alvo considerado inclui idosos a partir de 50 anos e pessoas imunossuprimidas, grupo mais vulnerável às complicações da doença.
A herpes zóster é causada pelo vírus varicela zóster, o mesmo da catapora. Após a infecção inicial, o vírus permanece latente no organismo e pode se manifestar décadas depois, principalmente com o avanço da idade ou queda da imunidade. Embora em muitos casos o quadro seja autolimitado, há registros de complicações severas, como neuralgia pós-herpética, lesões extensas na pele, comprometimento ocular, auditivo e neurológico.
Entre 2008 e 2024, o SUS registrou quase 86 mil atendimentos ambulatoriais e mais de 30 mil internações relacionadas à doença. Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade indicam 1.567 óbitos entre 2007 e 2023, sendo 90% em pessoas com 50 anos ou mais, com destaque para idosos acima de 80 anos.
O envelhecimento acelerado da população amplia o impacto do problema. Segundo o IBGE, o número de brasileiros com mais de 60 anos mais que dobrou entre 2000 e 2023, passando de 15,2 milhões para 33 milhões de pessoas.
Atualmente, o único imunizante disponível no país é o Shingrix, produzido pela farmacêutica GSK. Na rede privada, o esquema completo de duas doses pode custar até R$ 2 mil, valor inacessível para grande parte da população. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS reconheceu a eficácia da vacina, mas considerou o custo elevado para uma política de cobertura ampla.
A exclusão do imunizante do calendário público mantém a proteção restrita a quem pode pagar, em um cenário no qual a prevenção poderia reduzir internações, sequelas e mortes em uma faixa etária crescente da população brasileira.
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