O dia 8 de março de 2021 será uma um pouco diferente dos 8M de anos anteriores. Estamos vivendo o ineditismo de uma crise sanitária que está perto de completar um ano e já ceifou mais de 265 MIL vidas, só aqui no Brasil. Mesmo vendo nas redes sociais e em reportagens que muitas pessoas estão naturalizando a gravidade da situação e abandonando as recomendações de segurança sanitária preconizada pela OMS, a pandemia é real e letal, queira as autoridades, e seus seguidores, ou não.
A pandemia desnudou uma série de problemas estruturais históricos da nossa sociedade, principalmente a divisão desigual de trabalho entre homens e mulheres. O isolamento social necessário para a contenção do contágio pelo COVID-19, nos colocou diante de um outro problema, seja ele, a sobrecarga de trabalho para nós mulheres. Principalmente os trabalhos relacionados ao cuidado, pois além de termos que dar conta de nossas atividades remuneradas, no home office, era necessário cuidar de tudo para que nossos filhos e/ou companheiros também pudessem dar conta de suas respectivas atividades, seja escolar ou profissional.
Deste modo, vivenciamos, historicamente, uma série de desigualdades e violência pela condição de gênero, ou seja, por sermos mulheres, há a necessidade e a urgência de leis e até mesmo datas comemorativas relacionadas as nós. Essas medidas visam a conscientização e a mudança de mentalidade.
A Organização das Nações Unidas (ONU), em 1975, oficializou o dia 8 de março como o dia Internacional da Mulher. Mas a pergunta que lhe faço é: Você sabe por que existe um dia da mulher? Qual a necessidade de separar uma data para lembrar ou “celebrar” a mulher?
Gera-se até mesmo o questionamento do senso comum, sobre qual seria o dia do homem? Ou outras pérolas, que evidenciam uma estratégia muito comum aqui no Brasil, por parte dos grupos privilegiados ou pelos grupos alienados, que não conseguem entender o seu lugar social, que muitas vezes encampam o discurso do opressor e reproduzem as opressões. É a ideia a de que o opressor também é oprimido, numa clara tentativa de deslegitimar lutas por igualdade de condições.
E esse contra-ataque já nos é bem conhecido, existindo até as frases prontas e clássicas tais como: achar que existe racismo inverso, que deveria existir o dia do homem, a lei João da Penha dentre outros devaneios que escutamos por aí, no claro esforço de diminuir ou inferiorizar a luta por demandas específicas.
O dia Internacional da Mulher, historicamente, tem relação direta com a luta das mesmas por igualdade de condições econômicas, políticas e sociais, uma vez que a imagem feminina sempre esteve ligada à ideia da esfera doméstica, da fragilidade, maternidade e da inferioridade. O que criou barreiras para que as mulheres fossem consideradas até mesmo cidadãs.
E esse modelo de mulher ligada à esfera doméstica remonta ao início do século XIX, fruto de uma construção social consolidada na opinião pública, na imprensa e nas leis. Segundo, as historiadoras Carla Bassanezi Pinsky e Joana Maria Pedro em seu artigo Igualdade e Especificidade. “A mulher que atua nos territórios ‘masculinos’ da cultura e da política foi repudiada em favor da mulher doméstica, que elege a família como centro de sua vida”. Reforça, o que as autoras chamam de segregação sexual dos espaços públicos e privados.
Foi somente a partir das revoluções Francesa e Americana que a ideia de romper com o status quo, começou a ecoar nas sociedades da época. Assim, abrindo espaço para que as hierarquias e poderes estabelecidos pudessem ser questionados. Mas como sempre, nem tudo são flores. Mulheres mataram e morreram em nome dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, propalados pela revolução Francesa. E depois de terminado o trabalho duro, as mesmas foram convidadas a retornarem para seus lares e servirem a nação como eximias donas de casa.
Retomou-se a ideia de que para as mulheres cabia a vida doméstica constitutiva da “natureza” feminina e não os assuntos do Estado, que eram considerados da “natureza” masculina. Por essas e outras que alguns historiadores falam das contradições das ideias iluministas que não contemplavam as mulheres.
Desde o início da Revolução Industrial, quando o emprego da mão de obra feminina se mostrou necessário, elas eram submetidas a jornadas de trabalho, que podiam chegar há 16 h por dia. Uma atividade desumana e mal remunerada. O que nos mostra que ao longo dos tempos o trabalho feminino, quando lhes era permitido um trabalho remunerado, sempre foi desvalorizado e explorado.
Assim, a data é relacionada ao incêndio ocorrido em uma fábrica em Nova York, em 25 de março de 1911, quando 146 trabalhadores morreram queimados, dentre eles 129 mulheres. Evidenciou-se as péssimas condições de trabalho, já que as portas ficavam trancadas para impedir a fuga dos trabalhadores. Há uma versão que diz que o incêndio foi causado criminosamente pelo patrão em resposta a uma greve dos operários dessa fábrica, que se trancaram na mesma para reivindicar melhores condições de trabalho e salário.
Não podemos permitir que essa data “comemorativa” seja descolada de seu real sentido e significado, passando a figurar como mais uma data qualquer, ou apenas uma data comercial. Precisamos urgentemente resgatar o real sentido e significado desta data. E é muito bom lembrar, que o dia 8 de março não é dia de presentear as mulheres com flores ou chocolates, ou qualquer tipo de presente. É dia de luta! É dia de balanço sobre nosso lugar na sociedade.
Dia de questionarmos o porquê de ainda ganharmos salários inferiores aos dos homens em cargos de mesma escolaridade e atribuições. É dia de perguntarmos quem matou Marielle?
Dia de questionar o porquê de sermos vítimas diárias das mais variadas violências e desrespeitos. De questionarmos o porquê de não podermos exercer plenamente o direito constitucional de ir e vir sem sermos estupradas. Dia de lembrarmos que não devemos fazer essas reflexões e questionamentos só no dia 8 de março de cada ano. Dia de lembrarmos que devemos resistir e reivindicar direitos todos os dias.
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