Quarta-feira, 13 de maio, 9h. Enquanto milhares de servidores do governo do Estado do Rio cumpriam expediente, William Alves de Souza Júnior, o William Bomba, de 42 anos, abria as portas do seu Lava Jato JB 275, no centro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
O detalhe: em 24 de fevereiro, ele havia sido nomeado pela gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL) como ajudante na Secretaria da Casa Civil. O salário: R$ 10 mil.
Investigação da coluna mostra que, assim como William, ao menos outras 23 pessoas ligadas diretamente ao deputado estadual Felipe Rangel Garcia, o Felipinho Ravis (PP), ou a aliados dele ganharam cargos na pasta, num intervalo de apenas uma semana, entre os dias 23 de fevereiro e 1º de março.
Somente nos contracheques de março, o gasto com esse grupo foi de mais de R$ 260 mil.
O levantamento mostra que, em plena reta final do julgamento no TSE do escândalo do Ceperj –que o tornou inelegível–, Castro mantinha a pleno vapor a prática de empregar fantasmas para agradar aliados políticos.
Na carona das nomeações, Felipinho Ravis –deputado mais votado em Nova Iguaçu em 2022– se tornou um dos principais aliados na Baixada do pré-candidato do PL a governador e atual presidente da Alerj, Douglas Ruas.

No dia 24 de fevereiro, Ruas anunciou o ex-prefeito de Nova Iguaçu e aliado de Ravis Rogério Lisboa (PP) como vice na chapa do PL.
Procurados pela coluna, tanto Ruas quanto Lisboa disseram que sequer sabiam dos cargos destinados a Felipinho Ravis.
Ravis foi questionado pelo email de sua chefia de gabinete, mas não se manifestou. O ex-secretário da Casa Civil Nicola Miccione foi procurado por WhatsApp, mas também não quis se pronunciar, assim como Cláudio Castro, contatado via assessoria de imprensa. O espaço segue aberto.
Todos os 24 funcionários comissionados já foram retirados dos cargos pela gestão do governador interino, o desembargador Ricardo Couto, em algumas das levas das milhares de exonerações de pessoas suspeitas de receberem salário sem efetivamente trabalhar.
Em nota, a atual gestão afirmou que “realiza auditoria na gestão das secretarias e entidades da administração indireta, incluindo empresas estatais dependentes e não dependentes”.
“Como resultado, 2.818 servidores foram exonerados entre 24 de março e 27 de maio. E, entre março e a primeira quinzena de maio, a Controladoria Geral do Estado instaurou 24 Processos Administrativos Disciplinares, com 20 penalidades aplicadas”.
“VOU DUAS, TRÊS VEZES POR SEMANA”

Encontrei com William do Lava Jato na manhã de 13 de maio, enquanto ele ainda estava nomeado na Casa Civil – sua exoneração ocorreu uma semana depois.
Perguntado se havia sido indicado para o cargo por Felipinho Ravis, ele confirmou que foi por meio de “um assessor do deputado”, sem especificar quem seria.
Tentei descobrir mais sobre sua rotina.
Como é o seu trabalho na Casa Civil?
William: “Eu vou lá (na Casa Civil), trabalho um pouco, fico aqui (no Lava Jato)… Hoje eu abro (o Lava Jato), depois eu dou um pulo lá (na Casa Civil). Vou lá, trabalho… Os meninos (da Casa Civil) me explicam porque eu estou em período de aprender a fazer as coisas lá… Aí vou, trabalho, não todo dia, mas tenho ido, entendeu?”
Lá você faz especificamente o quê?
William: “RH… Recursos humanos… Contratos, negócio de RH, tem que levar contrato para ali, contrato para cá, fechar planilha…”
E qual o seu salário?
William: “Ah, salário, eu ainda não peguei o contracheque, não tenho noção de quanto é.”
Quantos dias por semana o senhor vai na Casa Civil?
William: “Umas duas, três vezes por semana… Vou, fico lá, trabalho um pouco. O dia que não dá, porque levo meu filho todo o dia para o colégio, aí não vou hoje, vou amanhá, entendeu?”
O cargo que William teve na Casa Civil previa carga horária semanal de 40 horas. Nos contracheques de março e abril, ele recebeu, ao todo, R$ 21.785.
“IA FAZER UMAS FICHAS”
As profissões dos indicados por Felipinho Ravis são ecléticas. Outro que confirmou à coluna ter sido escolhido por um assessor do deputado para ocupar uma vaga na Casa Civil foi o jovem cabeleireiro Yago Vinícius Trindade Grusman de Araújo, de 28 anos.
Encontrei com ele na tarde do dia 13 de maio, enquanto tratava do cabelo de uma senhora num pequeno salão, em Nova Iguaçu.
Yago foi nomeado em 23 de fevereiro pela gestão Cláudio Castro, mas caiu em um dos pentes-finos do governo de Ricardo Couto: foi exonerado em 17 de abril.
No pouco tempo em que esteve no governo, recebeu ao todo R$ 18.753, com carga horária de 40 horas semanais. Também pedi a ele que me contasse como era a rotina de trabalho na Casa Civil.
Yago: “Ia lá (na Casa Civil) segunda, quarta e sexta para poder ajudar no negócio do administrativo lá.”
Administrativo?
Yago: “É… Lá nas funções de fazer umas fichas… Lá na Casa Civil mesmo.”
“SEXTA-FEIRA DE MUITO TRABALHO”
Há também integrantes da “tropa do foguete” –como são chamados os apoiadores de Felipinho Ravis– que fizeram questão de mostrar trabalho nas redes sociais. Mas não na repartição.
Ex-candidato a vereador em Nova Iguaçu, Maxwell de Jesus e Silva, o Soel, de 49 anos, nomeado em 1º de março na Casa Civil com salário de R$ 10 mil, publicou pelo menos seis vídeos no Instagram acompanhando obras da prefeitura do município enquanto tinha o cargo no governo estadual.
No final, agradeceu a políticos da região e, em especial, ao “amigo Felipinho Ravis”, como no dia 8 de maio, “uma sexta-feira de muito trabalho”.
Soel foi exonerado no dia 20 de maio pela atual gestão. Ele foi procurado por email, mas não se pronunciou. O espaço segue aberto.
A lista dos nomeados ainda tem Filipe Luiz Oliveira Bernardes, de 38 anos, que recebeu R$ 22.142 entre 23 de fevereiro e 15 de maio, quando foi exonerado.
Filipe, que se apresenta em redes sociais como gestor na área da saúde, é irmão do chefe de gabinete de Felipinho Ravis na Alerj, Pietro Bernardes. Ele foi procurado por email, mas não se manifestou. O espaço segue aberto.
A Casa Civil também virou território de amigos de Felipinho Ravis no mundo do samba. Ex-candidato a vereador em Nova Iguaçu, Nury Almawi Filho, o Nurynho, de 30 anos, é presidente da Império da Uva, escola que tem como presidente de honra o deputado do PP.
Ele e o vice-presidente da Nova Liga NI (Nova Liga de Blocos e Escolas de Samba de Nova Iguaçu), Allan Souza Silva, de 42 anos, tiveram cargos com salários de R$ 10 mil entre o fim de fevereiro e o dia 20 de maio, quando foram exonerados.
Em março, durante um evento de carnaval na cidade da Baixada, gravaram um vídeo com Felipinho Ravis, encerrado com o tradicional gesto do deputado do “foguete que não tem ré”.
A coluna procurou Nury por email, mas não teve retorno, e não conseguiu localizar Allan. O espaço segue aberto.
“O QUE EU VOU FAZER?”
A coluna também detectou que, além da leva de nomeações entre o fim de fevereiro e o início de março, também houve outras espaçadas na Casa Civil, ligadas a Felipinho Ravis.
É o caso da jovem Geovana Santiago, de 26 anos, moradora de Nova Iguaçu, com quem eu encontrei na porta de sua casa, no dia 13 de maio.
Nomeada em 29 de janeiro com salário de R$ 10 mil, ela confirmou ter sido indicada por um assessor do deputado.
Nitidamente constrangida, ligou na minha frente para o assessor –não identificado– para que ele a orientasse sobre o que falar. Pediu ainda que ele próprio falasse comigo, o que não aconteceu.
“O que eu vou fazer?”, perguntou.
Após cerca de dois minutos de indecisão, ela entrou na residência, de onde retornou em seguida com uma resposta:
“Eu trabalho na Casa Civil, no administrativo, mas hoje eu estou em casa.”
Outras duas pessoas de Nova Iguaçu foram nomeadas na pasta no mesmo dia de Geovana, com o mesmo salário de R$ 10 mil. Elas foram exoneradas entre os dias 15 e 20 de maio.
“QUEM É FELIPINHO RAVIS”
Nascido em Belford Roxo, Felipe Rangel Garcia, o Felipinho Ravis, de 38 anos, fez carreira na política em Nova Iguaçu, onde foi vereador em 2016 e 2020, com expressivos 10.962 votos na reeleição.
Em 2022, foi o candidato a deputado estadual com a maior votação na cidade. Quase 34 mil de um total de 47.105 votos de Felipinho naquela eleição foram no município da Baixada. À época, ele informou ao TSE não ter bens a declarar.
Entre julho de 2024 e dezembro de 2025, o parlamentar deixou a Alerj para ser secretário de Trabalho da gestão de Cláudio Castro.
O deputado foi eleito pelo Solidariedade, mas, em abril, migrou para o PP, numa cerimônia grandiosa que contou com a presença de caciques do partido como o deputado federal Dr. Luizinho e o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa, além do pré-candidato a governador pelo PL Douglas Ruas.
Ruas também esteve com Felipinho numa corrida que reuniu centenas de pessoas na cidade para homenagear o aniversário do deputado, no mês passado.
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