Não foi só a falsa advogada Michele Coelho Montenegro, a Mia Montenegro, de 47 anos, presa na semana passada pela Polícia Civil numa operação contra um esquema de fraudes envolvendo obras de arte, que tinha um cargo na Secretaria da Casa Civil do governo do Estado do Rio.
Investigação feita pela coluna revela que ao menos cinco amigos de Mia também ganharam empregos na pasta, de outubro do ano passado para cá. Somados, os salários brutos dela e dos funcionários comissionados ligados a ela –que variaram entre R$ 10 mil e R$ 16.500 mensais– chegam a mais de R$ 530 mil.
Os funcionários eram o empresário e especialista em TI Paulo Gorenstein, de 54 anos, e seu filho Pedro Castello Branco Daniel Ribeiro Gorenstein (21), também especialista em TI; as advogadas Juliana Pereira Nunes França Vilela (50) e Maria Eduarda de Azevedo Bento (27); e o educador ambiental Leandro Cristiano dos Santos (39).
Eles foram nomeados entre outubro de 2025 e fevereiro deste ano, na gestão de Cláudio Castro (PL), e exonerados, junto com Mia, na última quarta-feira, em edição extraordinária do Diário Oficial, após o site Tempo Real ter revelado o cargo da falsa advogada na Casa Civil. A exceção ficou por conta de Paulo Gorenstein, que já havia perdido o cargo na segunda-feira, 1º de junho.
PALÁCIO VERDE INVISÍVEL
Mia e seu grupo faziam parte de uma “equipe” responsável pela execução de um “projeto de educação ambiental e economia circular, voltado para os palácios Guanabara e Laranjeiras, chamado Palácio Verde, com ênfase em sustentabilidade”, informou, em nota, a atual gestão da Secretaria da Casa Civil, do governo interino de Ricardo Couto.
Apesar de ter contado com uma “equipe”, não há nenhum registro formal da existência do Palácio Verde, algo imprescindível para a execução de qualquer projeto no Poder Público.
Não houve nenhuma publicação em Diário Oficial referente ao projeto, assim como não existe qualquer referência a ele no SEI (Sistema Eletrônico de Informações), que reúne documentos dos processos administrativos do governo estadual. A coluna também não localizou nenhuma menção em redes sociais.
A coluna questionou a atual gestão da Casa Civil sobre que funções exatamente Mia e seu grupo cumpriam, se existia algum tipo de controle de frequência e se foi instaurado algum procedimento administrativo para apurar se efetivamente trabalharam.
A pasta se limitou a dizer que Mia foi alçada ao cargo “na gestão passada, quando ainda não existiam os procedimentos de compliance para nomeações”.
ACUSAÇÃO DE ESTELIONATO
Paulo Gomes Rangel Neto, advogado que representa Mia, afirmou considerar natural que alguém que tinha um cargo na Casa Civil também tivesse uma equipe de assessores para a auxiliar.
Ele disse ainda ter se surpreendido com a prisão de Mia agora pois o inquérito referente ao caso é de 2024:
“Tem muita coisa a ser esclarecida. A decretação da prisão foi extremamente precipitada”.
A falsa advogada foi levada pela Polícia Civil a uma unidade prisional em Benfica, onde, segundo seu advogado, foi visitada por funcionários do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) do governo estadual, que teriam feito a ela uma série de perguntas, que se recusou a responder.
Questionada a respeito, a assessoria de imprensa do governo estadual não se manifestou.
Mia Montenegro foi um dos alvos da Operação Teia Falsa, de Delegacia de Defraudações, que apura a prática de estelionato e apropriação indébita.
Segundo a polícia, ela teria construído uma falsa imagem de credibilidade, apresentando-se como advogada e herdeira de um grande patrimônio, para convencer uma vítima a participar de negócios envolvendo a venda de um imóvel na Zona Sul do Rio e obras de arte de alto valor.
As investigações apontam que o prejuízo inicial seria de pelo menos R$ 2 milhões. De acordo com as apurações, Mia usava promessas de negócios lucrativos para fazer com que a vitima fizesse pagamentos antecipados e adiantamentos financeiros.
Além da operação de hoje, ela já carregava um histórico de diversos processos por estelionato.
RETIRO EM BONITO (MS)
Entre os amigos da falsa advogada nomeados na Casa Civil, o caso que chama mais a atenção é o do empresário e especialista em TI Paulo Gorenstein.
Em redes sociais, ele demonstra ser amigo íntimo de Mia, com quem frequenta praia e festas badaladas na Zona Sul do Rio.
Nomeado em 27 de fevereiro deste ano, somou mais de R$ 45 mil nos contracheques de março, abril e maio, segundo dados do portal da transparência do governo estadual.
Seu filho Pedro já estava na pasta desde dezembro do ano passado. Nos contracheques de janeiro a maio, somou R$ 64 mil.
Enquanto recebia seu salário na Casa Civil, Paulo Gorenstein divulgou em sua página no Instagram uma série de fotos e vídeos que mostram um “retiro” de 12 dias na cidade de Bonito (MS), de 5 (terça-feira) a 17 de maio (domingo).
Ele só foi exonerado em 1º de junho.
TRABALHO “EM QUALQUER LUGAR”
Na última sexta-feira, entrei em contato com Paulo por WhatsApp. Havia apenas me apresentado como jornalista, sem detalhar qual seria o tema da reportagem, ou sequer citar o nome de Mia, e ele já escreveu:
“Ela é uma dicotomia viva!”
E seguiu:
“Você poderia se identificar. Você é jornalista? De onde? Para onde quer escrever? Não vou de forma nenhuma prejudica-la!”
Afirmei que sou colunista do Ururau e passei o meu Instagram (instadoberta), como ele havia pedido.
“Oi...Ruben, acho que o que eu teria para falar não esta alinhado com sua pauta editorial. Então me desculpe. Não precisa perder seu tempo”, disse Paulo.
Mandei, mesmo assim, perguntas a ele sobre a indicação de Mia, o cargo na Casa Civil e o “retiro” em Bonito. Ele respondeu, e reproduzo abaixo na íntegra, exatamente como foi escrito:
“Eu realmente acredito que se eu não tivesse trabalhado nem meu filho não teriamos próposito de estarmos sendo contratados. O que posso te falar que trabalhamos com TI e executamos diversos projetos profundos e desenvolvimento de material de Midia que foi usado e esta sendo usado pela Casa Civil. Vou colocar aqui o link do meu perfil do Linkedin. Trabalhar com TI me permite trabalhar de qualquer lugar e a qualquer hora. Estar 12 dias em Bonito não significa não trabalhar. Aliás não tem nada para fazer 12 dias em Bonito além de curar stress e um principio de Burn Out. Meu filho é um menino prodigio. Super dotado. 15.000 reais por mês é um salário muito abaixo para um profissional qualificado em IA, Midia Social, SAP e Full Stack. Considero o que produzimos nesse período muito justo e a devolutiva da remuneração justissima. Eu particularmente trabalho a 10 anos em frente a um computador e sou bem conhecido pela profundidade do meu trabalho e minha formação. Espero realmente que seja pacimonioso e saiba separar as coisas. E se puder me tire dessa caça as bruxas”.
Na página de Paulo no LinkedIn, assim como na de seu filho, não havia nenhuma menção ao trabalho na Casa Civil até o momento em que fiz contato. Pedro, inclusive, afirma na rede social ter um trabalho em tempo integral numa empresa privada.
Procurada, a Casa Civil não quis detalhar as funções de Paulo Gorenstein nem se pronunciou a respeito de seu “retiro” em Bonito. Não há, após a pandemia, nenhuma regra na pasta que estabeleça trabalho remoto, e a coluna não localizou no SEI nenhum registro de pedido de viagem em nome do empresário.

“NADA A VER COM OS NEGÓCIOS DESTA PESSOA”
Também consegui contato, por WhatsApp, com a advogada Juliana Pereira Nunes França Vilela, que aparece em redes sociais bastante próxima a Mia.
Ela respondeu de forma ríspida aos questionamentos sobre a relação com a falsa advogada e o cargo na Casa Civil:
“Nada a declarar. Não tenho nada a ver com os negocios desta pessoa.”
Não tive sucesso nos contatos por WhatsApp e email com a jovem advogada criminalista Maria Eduarda de Azevedo Bento. O espaço segue aberto.
Curiosamente, Juliana e Maria Eduarda chegaram a ser exoneradas pela atual gestão da Casa Civil na mesma data, 17 de abril. E também, num mesmo dia, 5 de maio, as exonerações foram canceladas pela pasta.
Elas só perderam definitivamente o cargo na última quarta-feira, após a prisão de Mia
Questionei a assessoria de imprensa da atual gestão sobre essa coincidência e se já havia um conhecimento prévio da relação das duas com a falsa advogada, mas não houve resposta.
PROJETO AMBIENTAL
De todas as pessoas ligadas a Mia na Casa Civil, Leandro Cristiano dos Santos é o que tem mais a ver com o conceito de sustentabilidade do tal projeto Palácio Verde, sobre o qual não há nenhuma informação concreta.
Ele é agente ambiental e faz trabalhos sociais em comunidades da Zona Sul do Rio. Numa foto postada no Instagram no ano passado, aparece com o crachá da Casa Civil enquanto levava crianças para um passeio voltado para o tema.
Leandro também vestia uma camiseta do projeto Favela Lixo Zero, que tem Mia Montenegro à frente. Na página do Instagram do projeto, ele aparece com a falsa advogada em eventos.
Tentei contato com Leandro por WhatsApp, mas não houve retorno. O espaço segue aberto.
Essa mesma página afirma, em postagens recentes, que a iniciativa voltou este ano após um período parada. “Somos invencíveis”, diz uma das legendas publicadas.
A última publicação, do dia 1º de junho, pedia um Pix para a realização de um projeto social este mês numa comunidade na Zona Sul.
O CNPJ é da C.S Blue-E LTDA, que está em nome de Mia. Segundo o site da Receita Federal, a empresa foi considerada inapta em 22 de maio, por omissão de declarações.
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