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STF vê operação atípica de R$ 132,9 milhões entre BTG e primo de Vorcaro

Decisão de André Mendonça cita negócio com empresa criada havia 18 dias

Por Fabrício Freitas
02/06/2026 às 20h09

Ministro André Mendonça citou operação milionária em decisão sobre a prisão de Felipe Vorcaro / Foto: Gustavo Moreno/STF

Uma operação financeira de R$ 132,9 milhões entre o BTG Pactual e uma empresa recém-criada por Felipe Vorcaro, primo do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entrou no radar do Supremo Tribunal Federal no âmbito das investigações da Operação Compliance Zero.

O negócio foi citado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF, ao decretar a prisão preventiva de Felipe Vorcaro. Na decisão, o ministro afirmou que a empresa Infrasolar, criada em março deste ano com capital social de apenas R$ 1 mil, obteve “êxito atípico” ao realizar operação superior a R$ 132 milhões poucos dias depois de sua constituição.

Segundo a apuração publicada pelo Valor, o crédito concedido pelo BTG à Infrasolar teria servido para substituir uma dívida antiga da BRGD, empresa ligada ao grupo de Felipe Vorcaro, que já mantinha compromisso financeiro com o banco. As duas companhias atuam no setor de energia solar.

A operação ocorreu 18 dias após a criação da Infrasolar. Para os órgãos de controle e investigadores, o movimento chamou atenção pelo valor, pela velocidade e pela ligação com um personagem apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do esquema investigado no caso Banco Master.

Apesar da menção ao negócio na decisão do STF, o BTG Pactual não é investigado na Operação Compliance Zero. De acordo com a reportagem, o banco teria realizado a transação como forma de tentar recuperar recursos e reduzir perdas relacionadas a uma operação anterior, feita em 2020, antes de a situação do Banco Master passar a ser alvo de apurações mais amplas.

Na decisão, André Mendonça afirmou que os recursos captados por meio das notas comerciais teriam sido usados para fortalecer a estrutura financeira atribuída ao grupo investigado. O ministro apontou a existência de um sistema complexo de movimentação de dinheiro, com empresas e fundos de investimento ligados aos alvos da investigação.

A BRGD, antiga devedora, aparece nas apurações como uma das empresas usadas para o repasse de uma suposta mesada de R$ 300 mil ao senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí. O senador nega irregularidades. A decisão do STF não aponta relação ou conhecimento do BTG sobre eventuais atividades ilícitas da BRGD.

Felipe Vorcaro foi preso temporariamente em 6 de maio, durante a mesma fase da operação que realizou buscas em endereços ligados a Ciro Nogueira. Depois, com novos elementos apresentados pela Polícia Federal, a prisão foi convertida em preventiva.

A investigação sobre Felipe ocorre dentro do mesmo ambiente de apuração que envolve Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e suspeitas de fraudes, lavagem de dinheiro e movimentações financeiras por meio de empresas e fundos.

O caso também se conecta a uma crise mais ampla envolvendo o Banco Master, o Banco Central e personagens do mercado financeiro. Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro, obtidas pela Polícia Federal e publicadas pelo Times Brasil/CNBC, mostram o ex-banqueiro falando sobre André Esteves, CEO do BTG, e sobre interlocuções no Banco Central durante as negociações envolvendo o Master e o BRB.

Nos diálogos, Daniel Vorcaro afirma que Esteves seria “ardiloso” e que teria influência sobre pessoas do Banco Central. As mensagens não provam interferência indevida, mas ampliam o peso político e institucional do caso, especialmente porque a própria autoridade monetária reconheceu ter identificado indícios de vantagens indevidas envolvendo dois servidores de seu quadro.

O Banco Central informou que afastou cautelarmente os servidores, instaurou procedimentos internos e comunicou os fatos à Polícia Federal.

Ao Valor Econômico, o BTG não comentou a operação envolvendo a Infrasolar sob o argumento de sigilo bancário. A defesa de Felipe Vorcaro afirmou que as atividades empresariais dele são lícitas e regulares, e que todas as operações passaram por procedimentos de compliance das empresas envolvidas.

A Infrasolar e a BRGD não responderam aos contatos feitos pela reportagem original. A ForGreen, grupo do qual a Infrasolar faz parte, divulgou nota afirmando que nenhuma de suas empresas tem envolvimento com os fatos investigados na Operação Compliance Zero.

Fonte: Valor Econômico

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